segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Finados


Estamos nos aproximando do dia em que comemoramos a lembrança de nossos
mortos, o dia de finados. Quando pequena, não gostava muito desse dia
porque tinha medo. Medo de olhar para a possibilidade de morte. Incrível;
mas mesmo sabendo que iremos um dia morrer, não gostamos de nos lembrar
disso; preferimos não ter consciência dessa realidade. Cresci. Já não temo
mais essa data. Observo ao longe o comércio que se estabeleceu em torno do
dia de finados. Ambulantes vendem flores, lanches, refrigerantes,
espetinhos... Visitar o cemitério virou passeio. É fofoca daqui e de lá.
Coitados dos mortos! Não podem descansar em paz no dia deles, tamanho o
barulho e a algazarra que por lá se faz. Tem gente que aproveita para
paquerar enquanto leva flores nas mãos. Visitar os defuntos virou passeio
e entretenimento dos bons!
É certo que alguns choram demais. Lamentam a falta daqueles que não estão
mais presentes. Culpam-se por não ter-lhes dado mais atenção ou
manifestado seu amor. Guardaram palavras que nunca foram ditas e que agora
não há mais para quem dizer, pois a pessoa se foi. Isso realmente dói.
Deixar de fazer, deixar de falar, deixar de amar... Sempre digo que o
momento é hoje! Faça. Fale. Ame. Não deixe para depois, pois o “depois”
pode não chegar. Abrace o seu filho enquanto você ainda o tem. Desculpe-se
com sua mãe enquanto ela ainda está ao seu lado. Perdoe seu cônjuge
enquanto vocês ainda podem ser amigos. O tempo não volta atrás para que
possamos reescrever nossa história.
Agradeça a Deus o tempo que teve ao lado do seu ente querido. Agradeça
muito. Se você tem saudades é porque valeu à pena desfrutar momentos ao
lado dele; foi um presente que o Pai lhe concedeu. Quanto mais amamos
menos falta sentimos de quem nos deixou, pois o sentimento de amor é
abrangente e agrega ao invés de afastar. O amor nos dá a certeza de que,
em algum lugar, aquela pessoa percebe o que sentimos por ela. Compactua
com nossas vibrações, sejam elas positivas ou negativas. Existe; pois como
disse no passado Lavoisier: “na natureza, nada se perde nada se cria, tudo
de transforma”. A morte é uma transformação, não um fim. Talvez, seja até
um novo começo... Quem sabe?
Ame. Ame muito. A vida tem valor pelos momentos que conseguimos vivenciar
e eternizar em nossa memória. Se você tem a lembrança de seu ente querido
viva em você, então, ele está contigo. Nós realmente nunca conseguimos nos
apoderar do outro, apenas partilhar momentos com ele. Basta ver que os
apaixonados vivem juntos mais em pensamentos que propriamente em ações.
Imagina-se muito. As criações mentais nos trazem sensações por vezes mais
fortes que a própria realidade... Se é que a realidade existe (pra bom
entendedor, meia palavra basta).
Neste “finados” não focalize a perda. Agradeça pelo tempo que passou junto
de seu ente querido. Recorde as coisas boas que fizeram juntos. Ria das
brincadeiras que tinham por costume partilhar. Encha seu momento de amor,
de gratidão, de paz... Finados vai ficar mais leve para você. E, com
certeza, em algum lugar alguém vai sorrir ao sentir uma vibração tão boa!
Maria Regina Canhos (e.mail: contato@mariaregina.com.br) é escritora.

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