quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Faroeste caboclo

Faroeste caboclo é o título de uma canção do grupo Legião Urbana, na voz
de Renato Russo, que narra a estória de João de Santo Cristo. A música
conta como esse personagem se tornou bandido, discriminado por sua cor e
classe social, como foi traído e em que condições foi morto. É o retrato
de inúmeros Josés, Joãos, Silvas e Souzas da vida. É o cenário que vem
sendo exposto e explorado continuamente pela mídia televisiva através de
suas reportagens sobre o tráfico de drogas e o confronto com a polícia. É
o que tem alimentado o horário nobre da telinha e enchido de horror o povo
brasileiro.
Alguns buscam a justiça ao seu próprio modo. Parece que voltamos atrás no
tempo, na fase da vingança privada, que por conta de seus intermináveis
conflitos acabou determinando o surgimento da pena de talião, como forma
de delimitar os castigos. Assim, a pena consistia na aplicação da mesma
agressão sofrida, daí a expressão: “olho por olho, dente por dente”. Se
observarmos bem, veremos que aparentemente estamos diante de um retrocesso
histórico. Nossa Justiça não vem inspirando credibilidade, pois
simplesmente, em muitos casos, não há justiça! O clima de insegurança é
perturbador e todos têm medo. A desconfiança perpassa qualquer
relacionamento e a predisposição em reagir fica automaticamente acionada
para alguma eventualidade. Fazemos coisas que sequer imaginávamos fossemos
capazes. Ficamos embrutecidos, aborrecidos, esquisitos... e nem sabemos
por quê. Mas estamos ali, todos os dias, em frente à telinha, alimentando
nosso subconsciente com informações negativas que fomentam nosso desejo de
vingança e nos fazem crer que nada de bom existe neste mundo.
Não me admira que alguns tenham partido para ações pouco recomendáveis em
função de se acharem no exercício de seu pleno direito. A vida das pessoas
parece ter muito pouco valor. Apenas parcos reais. As balas,
provavelmente, dão a sensação de que conseguirão aquilo que algumas
palavras não conseguiram. Ao final, restam muitas lamentações, meses de
expectativa e a dor do arrependimento. Mas quem se interessa por isso?
Acaso a TV aborda o peso na consciência, a frustração, o medo de
enlouquecer? Nada disso é mostrado. Permanece ignorado, pois não
interessa. Mostra-se o sangue, o desejo de vingança, a ira... mas, pouco
se retrata acerca da desolação subsequente. Faz-se crer que o homem pode
ser feliz dizimando sua própria espécie. Esse clima de animosidade que
estamos vivenciando atualmente vem sendo fabricado e alimentado pelos
meios de comunicação que, ao invés de promoverem a vida, insistem em
promover a morte e a degradação.
Existem muitos homens de bem que não são vistos, não são mostrados, não
dão ibope porque não mancham a TV de sangue. É muito triste ver o povo
brincando de faroeste, como se o outro fosse um inimigo a ser eliminado da
face da terra. Se a moda pega vamos ter que encomendar colete à prova de
balas para grande parte da população. Aqui vai um alerta para você que
está lendo este artigo: se algo ou alguém o encoraja a praticar um crime
contra o seu próximo, muito provavelmente, esse algo ou alguém não é bom
para você. Simplesmente se afaste; e sua vida irá, com certeza, melhorar!
Maria Regina Canhos Vicentin (e.mail: contato@mariaregina.com.br) é
escritora.
Acesse e divulgue o site da autora: www.mariaregina.com.br.

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