terça-feira, 13 de novembro de 2012

A violência e a omissão

Vivo um momento de dor. Dor moral. Dor que surge da perplexidade diante
dos rumos que a humanidade vem tomando. Grassa a violência e o desrespeito
por toda à parte. É morte aqui, lá e em todo o lugar. Vive-se em clima de
terror e medo. Nunca se sabe quem vai ser a próxima vítima de mãos
impiedosas e intolerantes. Procuro meditar sobre as teorias psicológicas e
suas explicações para certas atitudes humanas. Percebo, lamentavelmente,
que a prática é muito diferente da teoria. Ela a submete com tal
facilidade que surpreende até mesmo os teóricos que a criaram.
Reformulações vão sendo feitas, no intuito de abarcar as modificações
sempre crescentes; possibilidades infinitas como a singularidade humana.
Nesta era individualista que atravessamos poucos se importam em assegurar
ao outro condições mínimas para se desenvolver com saúde e dignidade. A
maioria preocupa-se somente consigo mesmo. A violência tem chocado porque
assume proporções assustadoras e, por incrível que pareça, isso tem sido
necessário para atingir uma série de corações endurecidos por tanto
egocentrismo. E há quem diga: matou tem que matar! É por isso que vamos
prosseguindo assim, de forma cada vez mais violenta. Não existe compaixão
pelo próximo. Não existe amor! Milhares de crianças morrem de fome ao
nosso lado. Milhares de pessoas precisam de uma oportunidade, um trabalho,
uma chance na vida. Quantas vezes cerramos nossos ouvidos diante de apelos
aflitos? Fechamos nossas mãos, nossos olhos e, por que não dizer, nossas
carteiras diante da carência alheia? Preocupa-nos nossa própria mesa e a
fartura que pode abrigar. Nem todos são tão pobres a ponto de nada terem
para dividir. Muitos há que necessitam somente de uma palavra de
encorajamento, mas alguém tem que dizê-la.
A omissão tem sido nosso maior pecado. Pecado social e moral que vem
trazendo consequências desastrosas para todos nós. Deixamos de ajudar
hoje, adubando a erva daninha que nos sufocará amanhã. Em minha profissão
estou cansada de presenciar o nascimento de pequenos marginais que, com o
tempo, transformam-se em grandes bandidos, alimentados pela exclusão,
abandono, pouco caso, maus tratos e desamor. Faltam braços para acolher
essa pequena criança quando ela mais precisa. Faltam conselheiros aos
pais, orientadores nas dificuldades, apaziguadores nos momentos de tensão
e desgaste. Enfim, faltam pessoas de bem querendo e se dispondo a ajudar.
Têm medo de sujar as mãos. Enquanto isso o mal se espalha. Vários há que
já não suportam; mas existem aqueles, e são muitos, que fingem nada ver ou
sentir, somente para não ter o desconforto de arregaçar as mangas e fazer
alguma coisa. Preferem a acomodação e o silêncio de quem checou a situação
doméstica e, naquele dia, constatou todos em casa, saudáveis e
sorridentes.
Gente, por favor, vamos acordar urgentemente antes que sejamos tragados
por essa onda de violência. Não precisamos esperar ser os próximos ou
alguém da nossa família. A família alheia é semelhante à nossa. Também
chora e ri. Também paga impostos, batalha por uma vida melhor e tem
direito à dignidade, respeito, saúde, amor, paz e segurança. Temos que
contribuir para um mundo melhor. Temos que fazer a nossa parte e logo. Se
exterminar bandidos fosse solução válida ao problema, a violência já não
existiria em muitos países que, mesmo com menor índice de criminalidade,
sobrevivem sob o domínio do medo, outra forma de coerção e violência.
Somente através do amor poderemos vencer essa batalha. Solidariedade,
compaixão, disponibilidade de ajuda e atenção ao próximo. Tenho certeza
que, dessa forma, conseguiremos vencer a violência e alcançar a paz.
Maria Regina Canhos Vicentin (e.mail: contato@mariaregina.com.br) é
escritora.
Acesse e divulgue o site da autora: www.mariaregina.com.br.

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