domingo, 22 de julho de 2012

Quando a violência se torna um entretenimento

Jornal do Brasil
Renan Almeida

Há duas semanas, a luta entre o campeão Anderson Silva e o desafiante Chael Sonnen ganhava a atenção de todo o planeta, principalmente entre os brasileiros, que torciam sedentos pelo seu representante contra o americano, por muitos chamados de falastrão.
A psicanalista Joana Novaes, da PUC-Rio, ao analisar a grande audiência que estes eventos estão atraindo, compara-os às lutas da idade média, "onde a violência é espetacularizada e torna-se entretenimento. É como se desse vazão a uma coisa interna do sujeito, que é cerceada".
Neste sábado(21), novamente um brasileiro e um americano se enfrentam na luta mais importante da noite. O potiguar Renan Barão luta com o americano Urijah Faber na disputa pelo cinturão da categoria galo, sem um favorito aparente.
O MMA (Artes Marciais Mistas) é uma modalidade recente de luta que mistura técnicas de diversas artes marciais. A família Gracie foi responsável pelos primeiros torneios, ainda na década de 80, quando aprimorou as técnicas do Jiu-Jitsu japonês, criando o Jiu-Jitsu como é conhecido hoje. Confiantes na técnica que desenvolveram, os Gracie começaram a realizar campeonatos em que desafiavam lutadores de qualquer modalidade a enfrentá-los. Surgia o `Vale-Tudo', que recebeu este nome pois, de fato, quase não havia regras.
O esporte ganhou popularidade no Japão e, mais tarde, nos EUA. No entanto, começou a ser discriminado pela violência dos combates. Apesar de ter como origem o Vale-Tudo, na década de 90 o esporte ganhou novo formato e um pacote de regras visando proteger os atletas. Desde então, o UFC se tornou a marca esportiva que mais cresce no mundo.
Masculinidade e violência
Para entender o motivo do crescente interesse nas lutas de MMA, o JB ouviu diferentes especialistas em sociedade e hábitos para que eles apontassem as diferentes razões.
A psicanalista Joana Novaes, da PUC-Rio, explica o interesse que as pessoas têm nos combates no fato de o ser humano ser o único com desejo genuíno pela violência. No entanto, em sociedade este desejo é limitado. Joana lembra que a imagem dos lutadores mudou na última década de 'pit boys' para atletas super disciplinados.
"Ao contrário do que acontecia na década de 90, esses caras não são mais os 'pit boys', os marginais. Eles se converteram em heróis e existe todo um esforço em mostrar a disciplina e a rotina de privação e treino extenuante que enfrentam", explica.
Ela ressalva ainda que "em nossa cultura, já muito violenta, pode ser perigoso reacender esse hábito". Também entende que, por trás da novidade, existe uma visão bastante conservadora que associa masculinidade à violência.
"Gera um certo estímulo violento nas pessoas. Principalmente dentro da cultura do anabolizante, da maromba, que considera ser porradeiro sinônimo de ser mais másculo", conclui.
Exploração da violência
O sociólogo Ronaldo Helal, do Núcleo de Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, destaca que o excelente desempenho dos brasileiros no principal torneio internacional de MMA, o UFC, é fator fundamental para a conquista de espaço que o esporte alcançou no Brasil. Na última década oito brasileiros conquistaram Cinturão no UFC, entre eles, Anderson Silva, que ganhou o título de campeão dos médios em 2006 e desde então já defendeu este posto dez vezes, se tornando o maior lutador de MMA da atualidade.
"Não existe esporte sem herói. É como a Fórmula 1 que, sem o Senna, não tem mais o apelo que tinha. No MMA temos campeões brasileiros" , explica Helal.
Outro componente apontado pelo sociólogo é o marketing que envolve o UFC. Com os atletas brasileiros em evidência, a grande mídia abraçou o esporte e até um reality show com lutadores foi realizado. Helal lembra que os clubes de futebol também entraram no meio, patrocinando atletas:
"Será que teria essa popularidade sem a imprensa?", questiona. "Temos o Anderson Silva no Corinthians, o José Aldo no Flamengo. A relação que as pessoas nutrem com seus clubes é maior do que com os atletas. Tudo isso atrai as pessoas".
Por sua vez, a socióloga Mariana Martins, da Universidade Estadual de Campinas, responsabiliza a mídia e os organizadores por promoverem como novidade as sequências de violência que não necessariamente representam alto grau de risco aos participantes da modalidade.
"Faz parte da dinâmica do MMA uma grande exploração midiática dos combates, de modo a simular situações de violência como se fossem reais". Ela até explica que a violência foi reduzida: "Por terem sido recebidos como repugnantes pelos espectadores, os organizadores proibiram uma série de golpes nos últimos anos".
Gladiadores do terceiro milênio?
Segundo a socióloga, a transmissão dos eventos minimiza os aspectos técnicos da modalidade, enfatizando a violência das lutas.
"Na Rede Globo os narradores definem os lutadores como `gladiadores do terceiro milênio', tentando criar um paralelo entre esta luta e os combates da Roma Antiga, quando não era raro que terminassem com mortes".
Mariana adverte ainda que, ao contrário da imagem de esporte brutal com que são promovidas, as lutas de MMA oferecem menos riscos físicos aos lutadores do que outras modalidades de lutas envolvendo pancadas.
Isso é confirmado em estudo da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, que concluiu que a taxa de lesão em competições de MMA é compativel com a de outros esportes envolvendo golpes. O estudo aponta que o menor indice de nocautes no MMA, em comparação com o boxe, ajuda a prevenir lesões cerebrais nos atletas.
Já o estudante José de Souza, 22 anos, diz que a dinâmica dos combates de MMA é o que mais o atrai na modalidade.
"No boxe, se o cara leva um golpe bem dado, o juiz separa, conta até 10 para ele levantar. No MMA se o adversário cair, coitado dele", ironiza.

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