domingo, 29 de julho de 2012

Lamento

Às vezes, eu me queixo com Deus. Nem sempre as coisas são como gostaria
que fossem e, de alguma forma, acho que Ele tem algo a ver com isso. Nos
momentos de dor ou tristeza queria que Ele tivesse pena de mim, mas parece
que não tem. Por alguma razão, que não sei qual é, demonstra esperar mais
do que posso oferecer. Eu queria entender, mas não consigo. Nem Madre
Tereza entendeu, pois ela pedia para Deus não confiar tanto nela. Sinto
que em muitos momentos minhas forças parecem se esvair. Toda vez que as
férias terminam e devo retornar ao trabalho me sinto assim. Há anos, o
judiciário se mantém com pouquíssimos funcionários, e os que lá se
encontram precisam dar conta de uma demanda absurda, que extrapola em
muito sua capacidade. O resultado é que ficamos doentes, mas parece que
ninguém se importa realmente com isso. Creio que, se houvesse interesse,
muitos afastamentos poderiam ser evitados. Não haveria a necessidade de
esperar o funcionário adoecer. Nesses momentos, em que mesmo Deus parece
não se importar, sinto-me órfã.
Por que o Criador permite tanto sofrimento, não sei. Creio que está sempre
apostando na humanização do homem. Espera que sejamos solidários e
minimizemos, nós mesmos, a angústia do outro. Tem gente neste mundo que é
muito importante, pois possui o poder nas mãos. O poder mal empregado, no
entanto, dissipa as oportunidades de auxílio ao próximo, prestando-se
apenas ao próprio engrandecimento. Tal, confessemos, é realmente pouco
perto do que seria necessário e urgente. Esbanja-se poder em beneficio
próprio, enquanto a maioria mendiga melhorias que nunca acontecem.
Eu poderia achar que Deus simplesmente fecha os olhos para essas coisas,
mas no fundo não acredito nisso. Continuo esperando o momento em que Ele
irá agir. Se isso não acontecer, pelo menos acreditei que aconteceria; e
essa crença, por si só me conforta, pois me faz sentir menos órfã do que
me sinto algumas vezes.
Desculpem o lamento. É muito triste ver que o sofrimento de muitos poderia
ser abreviado por quem detém o poder, e não é. Coisas que seriam
relativamente simples para uns, são barreiras intransponíveis para outros.
E, tenho consciência, nem sempre isso acontece propositalmente. Muitos
poderosos sequer têm noção do padecimento de seus subalternos. Não possuem
intimidade suficiente com eles que lhes faculte falarem abertamente sobre
suas aflições. Isso sem contar os que sofrem calados, por medo das
consequências do falar.
É; certamente Deus espera que alguns acordem de seu sonho dourado e olhem
ao redor, percebendo no olhar do próximo toda a dor e a dificuldade para
viver com alegria. Embora ela seja um direito de todos, nem todos podem
sorrir. Que este artigo sirva de alerta aos poderosos. Façam o que puderem
para minimizar o sofrimento do seu próximo. Vocês não perderão nada, e
ainda ganharão a oportunidade de fazer alguém feliz. Pode ser que tal
atitude lhes sirva de passaporte para experimentar a graça de Deus.
Maria Regina Canhos Vicentin (e.mail: contato@mariaregina.com.br) é
escritora.

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