quarta-feira, 17 de julho de 2013

Educação que liberta

 

João Baptista Herkenhoff

        Dois modelos de educação podem ser concebidos.

Um que se opõe a todas as mudanças estruturais porque defende a imobilidade social. “Que fique tudo como dantes no quartel de Abrantes”, como se dizia antigamente.

      Outro que pretende desnudar a realidade. Denuncia a injustiça do sistema. Nega a ideia de que alguns nascem para dominar e outros para serem dominados, segundo o dito popular: “Quem nasce para boi nunca chega a ferrão.” Discorda também de uma mudança de papéis entre opressores e oprimidos, conforme retratado com sutileza pelos versos de João Mulato e Douradinho: “Na boiada já fui boi, o carreiro me bateu, o carreiro virou boi, o ferrão agora é meu”. O mundo pretendido pela educação libertadora é um mundo de fraternidade, sem espada e sem ferrão, sem coronéis que ordenam e boiada que obedece.

        O projeto final da educação libertadora é contribuir para que as pessoas sejam agentes de transformação do mundo, inserindo-se na História.

       Não foi por mero acaso que Paulo Freire foi preso pela Ditadura de 1964, nem foi sem motivo que o emérito educador foi obrigado a exilar-se durante aquele sombrio tempo de Brasil.

Paulo Freire afirma que a educação libertadora busca desenvolver a consciência crítica de que já são portadores os educandos. Parte da convicção de que há uma riqueza de ideias, de dons e de carismas no cotidiano dos interlocutores.

1964 quis decretar a verdade, a democracia, o patriotismo: “Brasil, ame-o ou deixe-o.” Se você não concorda com o modelo de Brasil imposto pelas armas, seu destino é pegar o avião e partir, ou fugir a pé pelas fronteiras. Sem dúvida os ideólogos de 1964 leram Paulo Freire e perceberam que a proposta educacional de Freire não se coadunava com o modelo autoritário.

Fala-se agora em estabelecer como norma constitucional a destinação de dez por cento do PIB para a educação pública. Os jovens que marcham nas ruas aprovam esta tese, que foi erguida nas bandeiras de reivindicações. Aprovo com veemência a proposta. Determinar que um décimo do produto interno bruto seja endereçado à educação pública é uma grande vitória. Isto vai trazer como consequência a construção de novas escolas, a reforma e a ampliação das existentes, a contratação de mais professores e o aperfeiçoamento dos que já estão no quadro, a melhoria dos salários dos mestres, que hoje ganham muito pouco.

Mas voltemos a Paulo Freire. Que os dez por cento do PIB, o incremento das verbas e tudo o mais que se pede, neste momento da vida brasileira, comungue com os anseios de uma educação libertadora. Dez por cento do PIB para um tipo de escola que edifique Justiça, Liberdade, Solidariedade.

João Baptista Herkenhoff, Livre-Docente da Universidade Federal do Espírito Santo e palestrante pelo Brasil afora, é membro emérito da Comissão “Justiça e Paz” da Arquidiocese. Acaba de lançar ABC da Cidadania, livro publicado pela Prefeitura de Vitória. Distribuição gratuita.

E-mail: jbherkenhoff@uol.com.br

CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2197242784380520

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