terça-feira, 7 de agosto de 2012

A morte


Esta semana morreu uma mulher por quem eu tinha admiração. Não que ela
fosse assim especial para mim, na verdade era uma pessoa comum, mas
secretamente angariava a minha simpatia. Teve vários filhos, e os criou
todos alicerçados em valores morais sólidos, pessoas de bem. Às vezes, eu
a encontrava com o semblante cansado, outras radiante, outras ainda com a
contrariedade estampada no rosto; ou seja, uma mulher como qualquer uma de
nós. Mas, acompanhei a sua trajetória de vida, principalmente através da
vida de seus filhos; pessoas que, por extensão, também aprendi a admirar.
Todos com qualidades e defeitos, gente como a gente; que acerta e erra,
mas pensando melhorar.
Quinze dias atrás eu a vi saindo de uma clínica médica. Sua situação de
saúde agravada era visível, e fiquei chocada com a imagem de alguém que
fora tão forte tão debilitada. Eu chorei. Pedi a Deus por ela quase que
instantaneamente. Elevei uma prece para o seu conforto, e corri abraçar
minha mãe, como se pudesse conter o avançar da idade com os meus braços.
Estava paralisada diante da constatação do que a velhice e a doença podem
fazer com alguém.
Quando a morte se aproxima, manda sinais que alguns percebem. Meu filho
diz que não posso falar quando sinto alguém debilitado, pois dias após
essa pessoa morre. Pensando nisso foi que percebi que a morte manda sinais
de que está chegando. Principalmente, quando se está ficando velho. É como
um conjunto de luzes que começa a apagar, cada dia uma pequena chama, até
que se faz completa a escuridão. Pensando por esse lado, morrer não é tão
assustador assim. A gente vai descansando da frenética correria do dia a
dia aos poucos. Cada dia um pouco mais. A gente vai se desligando deste
mundo e se ligando num outro diferente, menos denso, mais leve.
A dor pesa, a doença pesa, a velhice pesa... Deixar esse peso não é assim
tão ruim como muitos avaliam. Na verdade, é uma espécie de desprendimento
em que, pouco a pouco, vamos nos despedindo de nossa vitalidade física
para abraçar nossa vitalidade espiritual. É uma passagem. Nosso corpo
físico vai abrindo as portas para liberação de nosso espírito que já se
sente sufocado pela falta de espaço. A velhice traz essa lentidão
necessária para se perceber, para entrar em contato com aquilo que não
enxergávamos, mas que sempre esteve ali conosco. É melancólico, sem
dúvida, como todo processo de amadurecimento, mas é libertador. Não há
como viver para sempre aqui na Terra.
Minha amiga descansa em paz neste momento, tenho certeza. Ela cumpriu a
sua missão. Viveu. Criou seus filhos. Legou ao mundo um pouco de tudo o
que aprendeu e assimilou, perpetuando-se nas gerações que vieram depois,
estando um pouco presente mesmo em seus netos. A vida é assim. Ela se
transforma. Uma parte de nós é assimilada pelos nossos, outra pelas
pessoas que nos cercam, outra ainda volta para o Criador. O Senhor Deus
nos acolhe e nos livra desta roupagem já desgastada. Ele restaura nossas
forças, alinhavando-nos novamente junto Dele, onde nos sentimos mais
plenos e gratificados. Se você está velho, não tenha medo da morte. Ela é
só mais uma etapa. É a vida em transformação. Aposto que a plenitude está
do lado de lá!
Maria Regina Canhos Vicentin (e.mail: contato@mariaregina.com.br) é
escritora.

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