domingo, 22 de março de 2009

O PRIMEIRO JOGO ENTRE A SELEÇÃO BRASILEIRA E O RESTO DO MUNDO ACONTECEU EM CAJAZEIRAS.


Quem nos relata esta jóia da história cajazeirense é dos maiores cajazeirenses: ALFREDO RICARDO DO NASCIMENTO, o inolvidável ZÉ DO NORTE, autor da consagrada música "Mulher Rendeira". No final transcrevo a biografia deste grande cajazeirense, desconhecido de muitos conterrâneos.


A história é narrada no seu livro autobiográfico “Memórias de Zé do Norte”. Este episódio histórico ocorreu durante a construção do açude de Boqueirão de Piranhas no município de Cajazeiras. Para a obra vieram vários estrangeiros, americanos em sua grande maioria, tudo inusitado para os matutos da região, causava espanto a frota de caminhões GMC que transportava toda a maquinaria e material em geral.


A estadia destes povos do estrangeiro nestas plagas foi responsável por este certame esquecido, mas injustamente, afinal foi o primeiro JOGO ENTRE A SELEÇÃO BRASILEIRA E O RESTO DO MUNDO, e como nos dias de hoje a viúva, o erário público, paga integralmente a conta, aliás, a fanfarra (oriunda da verba de seiscentos mil contos de reis que foi destinada à Comissão Mista Americana, responsável pela construção) e a conclusão da obra foi para as calendas gregas, a execução do açude de Boqueirão só teve início, bem mais tarde, em 1932, mas só foi concluída no ano de 1936.


Não posso me alongar visto que transcrevo o fantástico texto do Zé do Norte, que com muita perspicácia, como testemunha ocular que foi, historia na obra supracitada que transcrevo abaixo.



O PRIMEIRO JOGO DE FUTEBOL ENTRE BRASILEIROS E ESTRANGEIROS QUE VI EM PLENO SERTÃO



De 1921 para 1922, instalou-se no polígono das secas do Nordeste a Comissão Mista Americana, para construir açudes naquela região. Entre muitos projetados estavam: Boqueirão de Piranhas, São Gonçalo, Curema e Pilões, todos na Paraíba.a verba foi de seiscentos mil contos de réis, que só deu para a construção de casas , uma igreja católica e outra protestante, fábrica de gelo e sondagens. Tudo foi preparado para dar conforto e bem-estar para todos os participantes da Comissão, que era composta de pretos e brancos, americanos, ingleses alemães, holandeses e a maioria de africanos. Foram iniciadas as obras de Boqueirão e São Gonçalo. Uma frota de caminhões GMC transportava toda a maquinaria e material em geral. Em Lavras de Mangabeira, desembarcava o que vinha de trem da capital cearense; outra parte vinha do Recife e Cabedelo. Boqueirão e São Gonçalo ficam entre Cajazeiras e Sousa. Eu fui empregado na casa de Mister Jack Jones, ganhando dez mil réis por semana, para fazer mandados externos, e ligar a chave da bomba de puxar água, dar banho nos cachorros e brincar com as crianças. No princípio era uma tortura, porque eu não entendia a língua deles, nem eles me entendiam, Dona Cristina, esposa de Mister Jones, era uma jóia de criatura, me tratava com todo o carinho. Eu não sei se era porque era sardento aloirado, igual a seus filhos, ou se era porque eu fazia tudo que ela mandava na maior rapidez. Ela me trava de mai boi. Até hoje eu sinto não ter ido embora com eles para a Inglaterra. Mas deixemos esse assunto para lá e vamos ao caso do jogo de futebol de Cajazeiras. Naquele tempo, havia três times em Cajazeiras: o Centenário, com as cores do Fluminense, o Ipiranga com as cores do América, e o Pitaguara, com as cores do Botafogo.


FORMAÇÃO DOS TIMES


Em Boqueirão e São Gonçalo, o pessoal da construção também tinha seus times e por isso foi combinado um jogo amistoso, entre brasileiros e americanos. O jogo foi marcado para um dia de domingo em Cajazeiras. O campo existente não servia, porque era pedregoso e acidentado. Construíram outro campo a meia légua fora da cidade, e com sua extensão maior que o Maracanã.


O jogo seria quase de caráter internacional; racionalmente era, porque nossos jogadores eram todos brasileiros, e os deles, estrangeiros. Conheciam futebol e suas regras, portanto eram superiores, e logicamente seríamos derrotados. Zé lira, além de jogador, era o treinador e o organizador. Por isso, resolveu tomar emprestados alguns jogadores à outra cidade, pra formar um escrete à altura de enfrentar os estrangeiros. O escrete sertanejo, chamado de brasileiro, estava pronto e o jogo seria a 7 de setembro, dia da Independência; o time treinava todos os dia: “Temos que jogar para ganhar”, era o convicção de todos.


FORMAÇÃO DOS TIMES


Uma tarde a turma estava treinando e assisti quando a bola caiu ao lado do gol, onde estava um cidadão, que apanhando a bola com o pé e chutando, como se soubesse jogar futebol, chamou a atenção de Zé Lira, que imediatamente se dirigiu ao mesmo e perguntou:


- O senhor sabe jogar futebol?- Já joguei.- De onde é o senhor?- Sou do Rio de Janeiro. Sou mecânico e vim trabalhar com a comissão americana, mas não me dei bem e vou voltar pra minha terra.- O senhor quer dar um treino com a gente, agora mesmo?O treinador lhe deu um calção e um par de chuteiras de outro jogador, e ele entrou em campo.


Assim que apanhou a bola, driblou todo mundo e fez o gol. A turma endoidou com o rapaz, que acabou sendo carregado nos braços até o centro da cidade, onde ficou hospedado na sede do Pitaguara. Mandaram logo o alfaiate, Mestre Enéas, vesti-lo com roupa nova e o empregaram logo mecânico. Não me lembro seu nome, porém sei que foi apelidado de Pita, que, com esse nome, ganhou a fama e tornou o maior jogador do tal escrete brasileiro.


O JOGO


No dia do jogo, o campo estava enfeitado por todos os lados. Em volta, havia um toldo de lona, que abrigava o povo, as comidas e as bebidas, que eram demais. Uísque, conhaque, cervejas e vinho do Porto e conservas de toda espécie, tudo de origem estrangeira, exceto a carne, de mais de dez bois, para o povo comer de graça; tudo por conta da verba de seiscentos mil contos de reis. O povo nunca tinha visto uma festa tão rica! A frota de caminhões GMC transportava gente de todas as cidades adjacentes.


- Êta, bicho rico danado é americano, hein, compadre! Isto é que é festa, a gente come e bebe e os gringos é quem paga!
A turma gostava de comer e beber de graça, somo Santos Bezerra, Severino Riachão, Higino, Apolinário e muitos outros. Beberam uísque e conhaque, cerveja e vinho, perguntavam um para o outro:
- Quê tu acha do tal uísque?Respondeu o outro:- É bom que é danado, mas tem um gosto de mijo de bode, da peste.- E o tal de sovete de gelo?- Que gelo, que sovete, que nada, rapaz, isso é vidro americano moído, misturado com água e leite de coco! Mas como tudo é de graça, vamo bebê e bancá o americano também!


A festividade estava parecendo um dia de jogo da Seleção Brasileira com outra estrangeira. As bandeiras hasteadas e a banda de música tocando o Hino Nacional Brasileiro e o Americano.
Começou o jogo. Os jogadores americanos, de capacete de couro, causaram grande admiração nos matutos, que perguntavam uns para os outros:


- Pra quê queles bota aquela casca de coco na cabeça? Será que mandiga pru-mode ganhá o jogo?
Os brasileiros, no meio dos tais americanos, pareciam galos garnisés, lutando contra dez galos de raça.. o jogador Pita, logo de saída, levou um pontapé tão violento no buzanfã (bunda), que subiu um metro, para cair, igual a jenipapo maduro. Aí um brasileiro gritou:
- Tenha vergonha gringo da peste, safado, fio da peste!A diferença era grande fisicamente, mesmo assim o Pita, no meio deles, parecia mais um tico-tico no fubá. E aproveitando a altura deles, chegou a passar por das pernas de um. Teve uma hora que houve um ataque em massa, por parte dos americanos, e alguém gritou:
- Eita cu de boi danado!


O primeiro tempo terminou zero a zero, e o povo invadiu o campo querendo pegar o jogador que deu o pontapé no Pita, mas a polícia não deixou.


Durante o intervalo os jogadores estrangeiros, para se refrescarem estavam passando gelo na cabeça.. Higino Apolinário gritou pra um jogador que estava perto dele:Num faz isso não, moço, que você estupora!O americano se aborreceu e um soco na cara dele, dizendo:


- Gademe Fox iu...- Eleodoro barbeiro, levantando-se, disse rindo:- Bem feito, tu qué falá americano sem sabê...- Mas eu não falei americano com ele, disse apenas que podia estuporá...- E tu sabe lá se essa palavra estuporá, num qué dizê nome feio na terra dele?
O segundo tempo começou. Os jogadores estrangeiros estavam quase todos puxando fogo (bêbados) e corriam mai do que emas nas várzeas. O jogador Pita era mais marcado e perseguido, mesmo assim conseguiu se livrar, driblar todos com bola e tudo, fazendo o gol da vitória dos brasileiros. Aí começou a tribuzana e o pau quebrou. As mulheres e crianças corriam por dentro do mato, gritando e rasgando as roupas, que dava a impressão do estouro de uma boiada correndo, com medo do fogo. Eu, que havia comido mais do que filho de ladrão quando o pai está solto, estava trepado nos galhos de uma árvore e fiquei até o fim, observando. O povo corria no caminho da cidade, fugindo do tiroteio, que apenas era intimidar, e felizmente não houve feridos. A não ser aqueles que me machucaram, correndo por dentro do mato.os estrangeiros, como se não tivesse havido nada, continuaram comento e bebendo, na maior alegria, como se tivessem ganho o jogo. Eu e uma turma de meninos, que nunca havíamos tomado sorvete nem comigo gelo, que a gente chamava de água dura, ficamos de bucho cheio, que não dava pra meter o delo na goela e vomitar.


E foi assim que terminou a festa e o jogo entre brasileiros de Cajazeiras e os estrangeiros da Comissão Mista America, que trabalhavam na construção do açudes de Boqueirão e São Gonçalo, na Paraíba. Para dizer a verdade, foi um jogo de arrancar rabo, mas que foi divertido, foi!
Fonte: fnorronha.blogspot.com

Publicado por: Jacinto Pereira

Um comentário:

  1. Antonio Cardoso do Nascimento23 de abril de 2010 07:34

    Parabéns por relato impresionnante!

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