quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Pimenta no dos outros...

 

Ribamar  Fonseca

RIBAMAR FONSECA 14 de Janeiro de 2015 às 19:24

Habituados a apontar o dedo acusatório a petistas, pelos mesmos motivos, os tucanos se veem agora em dificuldades para explicar a acusação, que partiu de um policial federal e foi noticiada pelos jornalões

Os tucanos, que estão envolvidos até o pescoço no escândalo do cartel de trens do metrô paulista, começam a entrar em pânico diante dos novos depoimentos na Operação Lava-Jato, onde nomes de peso do PSDB, como o do ex-governador mineiro e atual senador Antonio Anastasia, já surgem entre os beneficiários do esquema de propinas na Petrobrás. Ele foi acusado pelo policial federal Jayme Oliveira Filho de ter recebido R$ 1 milhão, a mando do doleiro Alberto Youssef. Habituados a apontar o dedo acusatório a petistas, pelos mesmos motivos, os tucanos se veem agora em dificuldades para explicar a acusação, que partiu de um policial federal e foi noticiada pelos jornalões.

O presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves, que costuma classificar de "extremamente grave" a mesma acusação a políticos petistas e de partidos aliados do governo, condenando-os por antecipação, apressou-se em distribuir nota afirmando que "não permitiremos que biografias honradas, como a do senador eleito por Minas Gerais, se confundam com a daqueles que vêm assaltando os cofres públicos no país". Não permitiremos?? E acrescenta que a "falsa e covarde acusação não se sustenta em pé". Ou seja, só é falsa e covarde a acusação contra tucanos, como se a filiação ao PSDB representasse um atestado de honestidade. Quanta hipocrisia!!

O fato lembra o episódio vivido pelo então senador Demóstenes Torres, que conquistou notoriedade por viver apontando o dedo para os outros e pedindo a cabeça deles diante de uma simples citação dos seus nomes em qualquer escândalo de corrupção. E ele passou a ser visto como modelo de honestidade, até o dia em que foram descobertas as suas estreitas ligações com o bicheiro Carlinhos Cachoeira. O senador goiano provou, então, do próprio remédio, perdendo o mandato e a aura de paradigma da honestidade. O episódio lembra uma famosa frase atribuída ao grande filósofo grego Sócrates: "Não basta parecer honesto. É preciso ser honesto".

Não se deve, obviamente, condenar ninguém a priori com base numa citação em qualquer investigação – afinal, todos são inocentes até prova em contrário – mas os tucanos, em especial o senador Aécio Neves, seu colega Álvaro Dias, o deputado Carlos Sampaio e o líder do PSDB na Câmara Federal, Antonio Imbassahy, são useiros e vezeiros em condenar petistas e aliados citados nos vazamentos seletivos da Operação Lava-Jato, antes mesmo de qualquer acusação formal. Agora estão sentindo na pele os danos causados aos outros. E isso, ao que parece, é apenas o começo de uma avalanche de acusações que desabará quando for revelada a lista de políticos beneficiados pelo esquema da Petrobrás. Há um velho dito popular que sentencia: "Quem tem telhado de vidro não atira pedras no telhado alheio".

Ninguém consegue prever ainda a extensão da lista de beneficiários do apelidado "Petrolão", mas de uma coisa poucos têm dúvidas: muita gente vai se surpreender com o aparecimento de nomes de destaque no cenário politico que, até a acusação do policial Jayme Filho, manifestavam uma falsa indignação com o que eles mesmos classificaram como "o maior escândalo de corrupção da história" do Brasil. Imaginavam, certamente, que estariam a salvo da Operação Lava-Jato e agora, diante da citação do nome do senador Antonio Anastasia, provavelmente serão mais cautelosos em seus pronunciamentos acusatórios, pois "quem vê a barba do vizinho arder coloca as suas de molho". E apesar das simpatias políticas de membros da equipe de investigação, vai ser muito difícil evitar que alguns nomes venham à tona.

O que impressiona nisso tudo é o tamanho dos tentáculos do doleiro Alberto Youssef, que, aparentemente, não tinha nenhuma simpatia por partidos, envolvendo todos os que, de alguma forma, pudessem contribuir para aumentar o seu poder de influência e a sua conta bancária. O que ele e os beneficiários não pensaram é que um dia o esquema fatalmente seria descoberto. E muitos dos que posam hoje de paradigmas da honestidade, fazendo questão de apontar o dedo sujo para os outros, acabam desabando do pedestal, revelando a sua verdadeira face. Não custa lembrar o que disse Jesus: "Não julgueis os outros para não serdes julgados com a mesma medida com que julgou".

Já circulam informações na Internet, com base no site do Tribunal Superior Eleitoral com os números da prestação de contas dos partidos sobre a última campanha eleitoral, dando conta de que diversos tucanos de alta plumagem, entre eles o próprio Aécio Neves, receberam doações milionárias de empreiteiras envolvidas no escândalo da empresa estatal. Isso não significa nenhum ato de desonestidade, mas diante dessas informações os beneficiários dessas doações já passam a ser vistos com certa desconfiança pela opinião pública. É o preço que muitos terão de pagar por seu comportamento hipócrita.

http://www.brasil247.com/pt/247/artigos/166601/Pimenta-no-dos-outros.htm

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