domingo, 15 de setembro de 2013

ELYSIUM E PROBLEMAS ATUAIS

 

Bruno Peron

Finalmente voltei ao cinema depois de tantos meses de resistência a consumir narcóticos culturais estadunidenses. Enquanto eles criminalizam o consumo do pó que o tráfico manda pela fronteira sul, legalizamos a inalação do gás cinematográfico que condensa todo um estilo de vida. Ao consultar a sinopse do filme Elysium, tive o desejo de conferir na tela o que de tão prognóstico se criou sobre temas atuais (cidades caóticas, poluição atmosférica e pobreza).

Surpreendi-me com a contemporaneidade dos problemas do filme apesar de que seu enredo se passa em Los Angeles em 2159 e num planeta-satélite artificial onde só vivem os endinheirados. Qualquer semelhança com condomínios não é mera coincidência. Por enquanto, engravatados viajam de helicóptero na cidade de São Paulo porque não suportariam o estresse do trânsito nesta cidade, enquanto outros compram lanchas para chegar a suas ilhas privadas no litoral.

A hegemonia do idioma inglês (e um pouco do minguante francês) sobre o espanhol (e todos os demais que existem no mundo) tampouco passa despercebido por um telespectador atento a formas sutis de poder. O cenário civilizatório que se projeta desde a América do Norte em relação à América do Sul no filme, destarte, exclui a população hispânica e afrodescendente de Los Angeles. Nesta exclusão, estrela também o México e sua obsessão por NAFTAlina.

Ao anunciar o pós-modernismo como o estilo de uma etapa histórica nova, Fredric Jameson explica o cenário consumista, industrial e urbano em função da reprodução do capitalismo tardio. Ele entende que os Estados Unidos protagonizam este modelo de desenvolvimento cultural e econômico desde sua emergência como potência nas décadas de 1940 e 1950. Portanto o filme Elysium - interpreto eu em relação às ideias deste acadêmico estadunidense - evidencia ao mundo as consequências deste padrão de expansão populacional e urbana.

Mais ainda, vi na tela do cinema a reprodução de um modelo desigual de sociedade e - esperançosamente - de uma crítica do diretor de Elysium àquilo de que ele mesmo é vítima inconsciente apesar de ser sul-africano. Refiro-me a certos padrões ideológicos que enaltecem culturas. A individualidade ou a universalidade no acesso a tratamento médico é uma questão fundamental para entender os pontos positivos e negativos do filme. Este trabalho cinematográfico despertou a reflexão sobre assuntos e dilemas humanitários importantes, por exemplo o de que o problema está mais na mentalidade das elites que na ignorância dos pobres.

É assim que práticas neo-colonialistas persistem (a função econômica de ex-colônias do Caribe ainda é a de prover alimentos aos europeus e norte-americanos), ideias de civilização difundem-se a vários países (o prédio do Instituto Nacional de Cultura está em frente ao da Embaixada da França no centro histórico da Cidade do Panamá), e o modelo de expansão urbana dos Estados Unidos sufoca o mundo (cidades com arranha-céus e muitos reservatórios de combustível e gás nos arredores para manter a cultura do uso do automóvel). Se questionarmos de onde vem toda esta energia não-renovável, chegaremos ao papel que a democracia e as guerras anti-terroristas exercem no Oriente Médio, sem as quais não se manteria esta sociedade perdulária.

Portanto, os filmes estadunidenses dão aos telespectadores noutros países o gostinho de fazer uma visita indireta ao que os Estados Unidos têm de melhor. E estes fazem bem sua política cultural sem se debruçar no dorso de seu governo. Mas não se pode negligenciar, em seu cinema, a contemporaneidade dos relatos apresentados como pertencentes ao futuro. Por isso saí da sala com a sensação de que, ao pisar a rua, os cenários de Elysium apareceriam ao dobrar a próxima esquina, candentes e vistosos no olhar de um observador do início do século XXI.

http://www.brunoperon.com.br

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