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quarta-feira, 18 de setembro de 2013

A ovelha negra

Penso que todos nós, vez ou outra, enfrentamos situações difíceis em
família. Uns mais outros menos, sempre existe alguma coisinha a ser
trabalhada para que o bom convívio possa acontecer. Algumas pessoas,
entretanto, por mais que façam para assegurar um bom relacionamento nunca
conseguem. Todas as suas tentativas redundam em fracasso simplesmente pelo
fato de serem tidas como a “ovelha negra” da família. A ovelha negra pode
fazer qualquer coisa, boa ou ruim, mas tudo o que faz tem para os
familiares a intenção distorcida para ruim; ou seja, jamais ela será uma
ovelha branca. Isso acontece porque a família escolheu assim. Foi a forma
que encontraram para se equilibrar. Dessa forma, todas as coisas ruins que
acontecem tem uma causa e, normalmente essa causa é a ovelha negra, mais
conhecida como “bode expiatório”.
Rita Lee compôs uma música que dizia: “Eu sou a ovelha negra da família”.
Ser um pária não é nada fácil, pois traz a sensação de exclusão que, nesse
caso, é real. O ser humano gosta do redondinho, do certinho, do
visualmente perfeito. Isso parece acomodar ansiedades decorrentes do
diferente. Quando alguém tem uma conduta que destoa da maioria, pronto;
incomoda, pois é diferente. Talvez, alguns se perguntem o que faz uma
ovelha negra para ser massacrada por toda a família. Basicamente nada de
mais, ela apenas é diferente. Tem condutas diferentes, anseios diferentes,
comportamentos diferentes daquele núcleo familiar. Costumam olhar para ela
com desdém. Afinal, ela saiu avessa aos moldes familiares.
Sei que existem muitas ovelhas negras espalhadas pelo mundo, e decidi
partilhar com vocês algo que descobri com o tempo e a observação. Jesus
Cristo foi uma ovelha negra. É verdade, pode acreditar. Sua família não se
conformava com suas atitudes. Desde pequeno começou a ser repreendido (Lc
2, 41-50); seus parentes achavam que era louco (Mc 3, 21) e não
acreditavam nele (Jo, 7, 5). Teve muitos inimigos ao longo da vida pelas
coisas que fazia e falava (Jo 5, 18); diziam que era um demônio (Mt 12,
24), zombando até da cidade de onde provinha (Jo 1, 46). Foi condenado à
morte como um maldito (Gl 3, 13), e sentiu-se abandonado até mesmo por
Deus (Mc 15, 34). Você conhece melhor exemplo de ovelha negra?
Certo que é doloroso ser tido como ovelha negra. É algo que não depende da
pessoa em si, mas da forma como os outros a veem. Você pode fazer de tudo
para agradar, mas por mais que faça nunca será o suficiente. Parece
existir um acordo implícito para que não o aceitem como é. Ou se sujeita à
mesmice familiar ou será condenado a viver como um pária, um maldito, um
excluído. Será que minhas palavras estão sendo fortes demais? Que o diga a
moça que foi expulsa de casa porque engravidou; o rapaz que foi banido da
família por envolver-se com maus elementos; ou a pessoa que se suicidou
por não encontrar alguém que a aceitasse como era (Carl Rogers, teórico da
psicologia, conta uma estória assim em um de seus livros).
Pode ser também o contrário, ou seja, o pária nem sempre é o pior da
família, pode até ser o melhor. O único que alcançou sucesso, que
conseguiu dinheiro ou realização profissional. Pode ter conquistado uma
vida conjugal satisfatória e filhos maravilhosos. Talvez seja querido
entre os amigos e estranhos ao meio familiar. Ora, isso é insuportável
para aqueles que não conseguiram se realizar na vida, e vivem se
lamentando quase que diariamente.
Enfim, não fique triste por ser a ovelha negra da família. Eu sei que você
faz o que pode para ser querido e amado. Se os outros não percebem, não
enxergam ou não querem ver, o problema é deles e não seu. Se Deus o fez
assim, é porque o ama dessa forma. Aceite-se; ame-se; e deixe que o
restante da família seja feliz apesar de você!
Maria Regina Canhos (e.mail: contato@mariaregina.com.br) é escritora.
      Acesse e divulgue o site da autora: www.mariaregina.com.br.

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