segunda-feira, 6 de julho de 2009

Amir Labaki: a autópsia em vida de Michael Jackson

Michael Jackson está morto. Não é mais preto ou branco. Ele é o mundo. Na estrada desde os cinco anos de idade, enfim ele descansa em paz. Cresci ouvindo-o nos Jackson Five. Eram ele e os outros quatro, além dos Beatles, lá fora, e a Jovem Guarda mais Simonal, aqui dentro. Foi esta minha trilha sonora naquele final dos anos 1960.

Por Amir Labaki, no Valor Online


Seu solo em Ben me hipnotizava no dia em que morreu tanto quanto ao ouvi-lo pela primeira vez, centenas de execuções e quase quarenta anos antes. Aquele triste garoto negro que encantava o mundo era eu.

Passada a adolescência, dele e minha, adveio a segunda e maior explosão. Em 1982, Thriller bateu todos os recordes com mais de 50 milhões de cópias vendidas mundo afora. Mais: o brilhante cantor virara eletrizante “performer”.

Todo mundo tentou imitar diante do espelho seu “moonwalk”, ninguém com a incompetência deste colunista. Sua combinação de blues, soul e pop foi reenergizada sob a batuta de Quincy Jones. A arte do videoclip consolidou-se a partir da parceria entre ele e o cineasta John Landis para Thriller. Ouvíamos música antes de Michael Jackson; a partir dele, também a vemos.

Michael alegrava a festa mas jamais parecia partilhá-la. Era insuficiente ter tanto talento. Não bastava ser rico. Ele queria ser outro. E assim se fez. Começava a longa e pública agonia de Michael Jackson. Primeiro, a metamorfose. Seu nariz afilou. O cabelo tornou-se liso. Seu queixo ganhou uma covinha. E sua pele clareou. “Vitiligo”, diziam.

Não surpreende que para meu filho, nascido em 1990, ele fosse uma bizarra figura do passado. Aquele Jackson garoto que parecia precocemente adulto se tornou um adulto obcecado em viver como criança.

“Sou Peter Pan no coração”, repetia o cantor, enclausurando-se cada vez mais em sua “Neverland”, um misto de rancho e parque de diversões. Sua incrível visão como empresário musical, ao comprar metade dos direitos sobre as canções dos Beatles, acabaria por sustentar sua extravagância mais do que suas próprias composições.

Por mais que tenha tentado, o extraordinário sucesso de Thriller jamais se repetiu.

Foi um choque quando espocaram rumores suspeitos sobre sua convivência com garotos. Um potencial processo custou-lhe em 1993 um acordo de milhões de dólares. Outro foi vencido no tribunal, uma década mais tarde, mas o derrotou definitivamente na arena pública.

Uma tentativa de reabilitação levou-o a colaborar com o repórter britânico Martin Bashir por oito meses no começo dos anos 2000. Foi-me duro resenhar para Folha o documentário resultante, Vivendo com Michael Jackson.

Com inédita abertura, Michael respondeu a dez horas de entrevistas de Bashir. A chave da esfinge lá estava para quem quisesse ver, em suas dolorosas revelações sobre a crueldade paterna.

Joseph Jackson não admitia ser chamado de "pai", ensaiava os filhos com um cinto de couro na mão e gozava as espinhas e o "nariz gordo" de Michael em plena puberdade. O mesmo nariz que o cantor finalmente reconhecia ter por duas vezes operado, para “respirar melhor” e “atingir notas mais altas”.

Cinema, no qual Michael como ator sempre se deu mal, pode ser um meio cruel. Em palavras, por meio da narração de Bashir e das próprias respostas indignadas de Michael, as acusações de pedofilia foram enfaticamente negadas.

Mas há as imagens. Eis um dos garotos que pernoitavam em Neverland, Gavin, 12, sendo entrevistado com as mãos entrelaçadas com as do ídolo. Ei-lo sorrindo para a câmera, encostando a cabeça no ombro de Michael. Como escrevi na época, o espectro destas cenas nos perturba até muito depois do filme.

Sempre achei pleno de simbolismo que Michael tenha se casado, ainda que brevemente, com Lisa-Marie, nada menos que a filha de Elvis Presley. Ambos foram ídolos que mergulharam para esticado declínio logo depois do apogeu. Ambos gravaram nos corpos o dilaceramento de suas almas. Por fim, nenhum deles sobreviveu até a hora da volta por cima. A diferença é que Michael fez tudo isso na era da informação em tempo real. Sua verdadeira autópsia foi feita em vida.

O declínio e o escândalo ofuscaram por demais não apenas sua arte. Embranquecer jamais representou para Michael um ato de negação de sua identidade étnica ou social. Foi, isso sim, sua dilacerante tentativa de parricídio. Michael Jackson redefiniu o status dos afro-americanos, muito antes de Oprah Winfrey e Denzel Washington. Com a campanha We Are The World, que co-produziu e co-escreveu em 1985, estabeleceu o padrão contemporâneo de militância cívica e cosmopolita dos artistas.

Barack Obama é o presidente dos EUA. Michael Jackson já podia partir para outra. Você olhou para cima na última semana? O homem finalmente voltou a andar na Lua.


Enviado por: Miguel Silva



Postado por Jacinto Pereira

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