segunda-feira, 20 de julho de 2015

Investigadores da Lava Jato suspeitam que ministro do TCU ajudou empresa

 

Renato Costa/Frame/Folhapress

Presidente do TCU, Aroldo Cedraz entrega ao presidente do Senado, Renan Calheiros, relatório sobre o tribunal

Os presidentes do TCU, Aroldo Cedraz, e do Senado, Renan Calheiros —investigado na Lava Jato

GABRIEL MASCARENHAS
AGUIRRE TALENTO
DE BRASÍLIA

Investigadores da Operação Lava Jato suspeitam que o presidente do TCU (Tribunal de Contas da União), ministro Aroldo Cedraz, repassou informações sobre um processo de interesse da UTC Engenharia, empresa que teria pago propina a seu filho, o advogado Tiago Cedraz.
Em novembro de 2012, quando ainda não havia assumido a presidência do TCU, Aroldo Cedraz pediu vista de um caso envolvendo supostas irregularidades na licitação de uma das unidades da usina de Angra 3. Passados 15 dias, ele devolveu o processo ao plenário e se declarou impedido de julgá-lo.
Embora não tenha participado do julgamento, Aroldo pôde analisar por duas semanas o parecer do relator, ministro Raimundo Carrero, favorável à continuidade do processo licitatório.
O relator, como de praxe, havia liberado previamente seu voto aos outros ministros, de acordo com seu gabinete.
O procedimento de Aroldo Cedraz é considerado pouco usual no TCU. Na maioria dos casos, ministros anunciam o impedimento assim que o processo entra na pauta, sem participar de nenhuma etapa da tramitação.
Procurador pela reportagem, Tiago Cedraz disse por e-mail que foi "consultado" pelo dono da UTC, Ricardo Pessoa, para trabalhar neste caso, mas "sua contratação não foi efetivada".
Um investigador ouvido pela Folha diz que o episódio entrou no radar da Lava Jato e que será apurado.
O caso em questão interessava diretamente à UTC, construtora líder do consórcio Una 3, um dos responsáveis pelas obras em Angra 3. A licitação discutida no TCU dizia respeito a um contrato de R$ 2 bilhões.
O dono da UTC, Ricardo Pessoa, preso por suspeitas de participação no esquema de corrupção da Petrobras, firmou um acordo de delação premiada com o Ministério Público, em troca de redução das penas.
Em seus depoimentos, o empreiteiro contou ter desembolsado R$ 1 milhão para Tiago ajudar na liberação do processo licitatório de Angra 3, que estava sendo analisado pelo tribunal.
Conforme a Folha revelou no final de junho, Pessoa ainda afirmou que, desde 2012, pagava R$ 50 mil por mês a Tiago Cedraz para ter acesso a informações privilegiadas de processos do TCU.
SOLIDARIEDADE
Outro fato que chama a atenção dos integrantes da Lava Jato é a ligação de Tiago com o Solidariedade (SDD). Ele é secretário de Assuntos Jurídicos do partido. Além disso, de acordo com Ricardo Pessoa, um dos pagamentos a Tiago foi feito por intermédio de Luciano Araújo, tesoureiro do SDD.
Segundo os investigadores, Tiago é quem dá as orientações jurídicas da sigla e por isso será alvo da apuração.
Na terça-feira (14), a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão na casa e no escritório de Tiago Cedraz em Brasília.
Integrantes da Operação Lava Jato têm indícios de que o advogado fazia lobby no TCU em favor de outras empresas, além da UTC.
A suspeita é a de que, para não aparecer nos processos em que o pai atuava, ele prestava serviços a outros escritórios de advocacia na capital federal, também vendendo informações sigilosas sobre processos.
OUTRO LADO
O ministro do TCU Aroldo Cedraz, atual presidente do órgão, e seu filho Tiago, afirmam que não atuaram no referido processo de Angra 3 envolvendo a empreiteira UTC, de Ricardo Pessoa.
Aroldo Cedraz, em nota, disse que "após o pedido de vista do processo, o ministro decidiu declarar-se impedido" com base no regimento interno do TCU.
A nota cita um artigo que inclui, dentre outros motivos para o afastamento em um processo, a parte envolvida ter como advogado algum parente do ministro.
O presidente do TCU afirmou ainda que "tem se declarado impedido em processos nos quais o mencionado advogado ou advogados do mesmo escritório atuem".
Já o advogado Tiago Cedraz disse, em nota, que seu pai nunca lhe passou informações sobre processos na corte e que, no referido caso, seu escritório de advocacia não chegou a atuar, tendo sido apenas consultado por Ricardo Pessoa, dono da UTC.
Tiago Cedraz afirmou ainda que os detalhes do caso são fornecidos aos demais ministros sem necessidade de pedido de vista.
Sobre as acusações de Pessoa, o escritório Cedraz Advogados afirma que nunca atuou para o grupo UTC nem para o consórcio Una 3 dentro do TCU.
Diz ainda que processará Pessoa "pelas mentiras lançadas no bojo de uma delação premiada forjada para atenuar ilícitos confessados".
Em nota, o partido Solidariedade disse que "desde já elimina a possibilidade de afastamento do tesoureiro nacional, Luciano Araújo, e do secretário de Assuntos Jurídicos, Tiago Cedraz". A nota, assinada pelo presidente da legenda, Paulinho da Força (SP), diz ainda que a delação premiada de Pessoa é "baseada em mentiras".

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