quarta-feira, 9 de maio de 2012

Masculinismo, pelos direitos dos homens

Militantes do 'masculinismo' dizem que é hora de defender direitos dos homens
da Folha.com
TOM DE CASTELLA
DA BBC NEWS MAGAZINE
http://noticias.bol.uol.com.br/internacional/2012/05/07/militantes-do-masculinis\
mo-dizem-que-e-hora-de-defender-direitos-dos-homens.jhtm

Militantes que defendem os direitos dos homens argumentam com cada vez mais
veemência que a discriminação contra o homem está aumentando. Quem são esses
ativistas?
Há décadas, grupos feministas fazem campanha por mais direitos para as mulheres.
Como resultado, a discriminação contra a mulher vem sendo rigorosamente
questionada --ao menos em países ocidentais.
Mas agora, um número cada vez maior de ativistas argumenta que os homens não
desfrutam desse tipo de proteção.
Muitos deles dizem também que a mídia permite que mulheres transformem homens em
objetos e os ridicularizem de uma forma que seria impensável se os papéis fossem
invertidos.
GUARDA DOS FILHOS
Entre os defensores dessas ideias está o professor de filosofia David Bernata,
da Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul.
No polêmico "The Second Sexism" (O Segundo Sexismo, em tradução livre), Bernata
argumenta que, em todo o mundo, homens correm mais riscos de serem forçados a
fazer serviço militar, serem alvo de violência, perderem a guarda de seus filhos
e cometerem suicídio.
As leis que regulam os direitos sobre a guarda dos filhos são talvez o alvo mais
conhecido das atividades dos militantes pelos direitos dos homens.
No Reino Unido, imagens de homens divorciados vestidos de super-heróis escalando
prédios em Londres foram destaque na mídia em anos recentes.
"Quando o homem é o principal responsável por cuidar das crianças, suas chances
de obter a guarda dos filhos são menores do que quando a mulher é a principal
responsável", diz Bernata.
"Mesmo quando o caso (pedido de custódia pelo homem) não é contestado pela mãe,
ele ainda tem menos chances de obter a guarda do que quando o pedido da mulher
não é contestado."
EDUCAÇÃO
Os aticistas afirmam ainda que a educação é mais uma área onde os homens estão
ficando para trás.
Em 2009, exames feitos pelo Programme for International Student Assessment, um
programa internacional de avaliação de estudantes, revelaram que, em todos os
países industrializados, os homens estão em média um ano atrás das mulheres em
alfabetização.
O levantamento também concluiu que a maioria dos estudantes em cursos de
graduação nas universidades hoje é composta por mulheres, segundo Bernata.
"Quando as mulheres são pouco representadas entre presidentes de companhias,
isso é considerado discriminação. Mas quando meninos ficam para trás na escola,
quando 90% das pessoas em prisões são homens, ninguém pergunta se os homens
estariam sofrendo discriminação."
"Se quisermos alcançar a igualdade entre os sexos, a discriminação contra os
homens tem de ser levada tão a sério quanto a discriminação contra a mulher",
argumenta o filósofo.
Em países desenvolvidos como a Grã-Bretanha, a igualdade de salários é o
barômetro. Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas do país, a discrepância
salarial entre os sexos ainda é bastante pronunciada: advogadas ganham em média
US$ 12 mil (R$ 23 mil) a menos do que advogados, presidentes de empresas ganham
US$ 22 mil a menos do que seus equivalentes do sexo masculino e médicas ganham
US$ 14 mil a menos do que médicos.
Mas esse quadro começa a mudar. No ano passado, a organização que controla
admissões de estudantes em universidades britânicas concluiu que mulheres com
idades entre 22 e 29 anos ultrapassaram os homens em salários pela primeira vez.
E uma pesquisa feita pelo Chartered Management Institute concluiu que gerentes
do sexo feminino com idades entre 20 e 30 anos estão ganhando 2,1% a mais do que
seus colegas do sexo masculino.
MASCULINISMO
Por tudo isso, ganha peso o argumento, entre alguns homens, de que eles precisam
criar suas próprias estruturas de apoio.
A ONG The Men's Network (A Rede dos Homens), com sede na cidade inglesa de
Brighton, tem como objetivo ajudar "todos os homens e meninos da nossa cidade a
realizar ao máximo o seu potencial".
A campanha Movember, por exemplo, propõe que homens deixem a barba crescer
durante um mês. Os idealizadores do movimento querem chamar a atenção para o
fato de que doenças que afetam os homens, como cânceres da próstata e do
testículo, não são levadas tão a sério como as que afetam mulheres.
Alguns argumentam que é hora de os homens criarem o equivalente masculino ao
feminismo: o 'masculinismo'.
O fundador da International Association of Masculinists (Associação
Internacional dos Masculinistas), o americano Aoirthoir An Broc, disse que há
milhares de ativistas homens lutando contra as leis de divórcio indianas, que
eles consideram desiguais.
An Broc, um designer gráfico especializado em websites que vive em Cleveland,
nos Estados Unidos, disse ter planos de fundar o primeiro abrigo para homens
vítimas de violência doméstica no país.
Ele disse que existe uma presuposição de que as mulheres são sempre inocentes e
de que os homens são sempre os agressores. Como resposta, ele criou o slogan
"Todos os homens são bons" para combater a percepção negativa.
"Nós dizemos que todos os homens são homens, todos os homens são bons, todos os
homens merecem amor e respeito independentemente de sua raça, sexualidade,
religião. Não acreditamos em definições culturais dos homens", afirma.
Algumas das preocupações dos militantes pelos direitos dos homens são
semelhantes às de militantes mulheres: a questão da imagem do corpo masculino é
uma delas.
Eles dizem também que, enquanto o feminismo combate a discriminação contra as
mulheres, conceitos ultrapassados em relação aos homens não são questionados.
O caso do ativista Tom Martin chamou a atenção da imprensa na Grã-Bretanha no
ano passado após ele ter processado o Departamento de Estudos de Gênero da
London School of Economics por discriminação sexual.
Ele diz que tornou-se um defensor radical dos direitos dos homens quando
trabalhava em uma casa noturna no bairro boêmio do Soho, em Londres. "Eu via que
os fregueses homens sofriam abusos o tempo todo."
Martin conta que os homens tinham de fazer fila e pagar para entrar enquanto as
mulheres entravam de graça. Eles eram maltratados pelos seguranças, mas mulheres
eram tratadas com respeito. Mas o pior, na opinião dele, é que as mulheres
usavam os homens, convencendo-os a pagar bebidas para elas.
No centro disso tudo, diz Martin, está o sexo. "Desde o surgimento da pílula, as
mulheres vêm ouvindo que podem e devem ter orgasmos. E porque não estão tendo,
dizem que a culpa é do homem."
Martin conclui que "cabe às mulheres sua satisfação sexual, isso não é
responsabilidade do homem".
O psicólogo e escritor Oliver James, ex-consultor do Ministério do Interior
britânico, acha que os homens estão se sentindo "ameaçados sexualmente".
Para ele, as mulheres hoje em dia não têm inibições em expressar suas
expectativas sexuais em relação ao parceiro. E não hesitam em avaliar a
performance sexual do homem em público.
DEBATE ANTIGO
Já as feministas, por sua vez, dizem que o movimento pelos direitos dos homens
não traz novidades. "É o velho argumento de que o feminismo foi longe demais",
diz a colunista do jornal britânico The Guardian, Suzanne Moore.
As discrepâncias salariais entre os sexos e o fato de que homens ainda dominam
postos de liderança na vida pública mostram onde está a discriminação real,
segundo ela.
Moore reconhece que há problemas na forma como meninos são educados mas diz que
não se pode fazer "generalizações afirmando que todos os homens sofrem
discriminação".
Kat Banyard, autora do livro The Equality Illusion (A Ilusão da Igualdade, em
tradução livre), diz que os homens se enganam ao temer o feminismo quando, na
verdade, o movimento oferece a eles a possibilidade de se libertarem dos
conceitos ultrapassados de masculinidade.
Argumentar que os homens agora são vítimas da luta entre os gêneros é absurdo,
ela diz. "Durante milhares de anos, mulheres foram subjugadas como cidadãs de
segunda classe. Começamos a mudar isso nos últimos dois séculos e ainda temos um
longo caminho a percorrer. Os militantes (pelos direitos) dos homens estão
negando a História".
Os defensores dos direitos dos homens têm dificuldade em mudar sua imagem "mal
humorada", argumenta o radialista Tim Samuels, que apresenta o programa Men's
Hour (Hora do Homem, em tradução livre) na BBC Radio 5 Live.
Samuels diz que a maioria dos homens não se vê como parte de um movimento.
"O movimento dos homens tende a ser reduzido a alguns sujeitos escalando prédios
vestidos de super-homem enquanto ao das mulheres é dada credibilidade."

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