sexta-feira, 6 de abril de 2012

Páscoa



Talvez esta Páscoa possibilite reflexões a cada um de nós. Algumas doces,
com gosto de chocolate; algumas nem tão doces, com gosto de sangue, suor e
lágrimas. Imagino que entre Jesus crucificado e o coelhinho devam existir
algumas diferenças bastante significativas, embora, por vezes os façamos
equivalentes. Eles parecem ter quase o mesmo espaço na mídia, entretanto,
acho que o coelhinho ainda sai ganhando, pois dá mais retorno para o
bolso; e que retorno... (basta ver o preço dos ovos de chocolate). Jesus,
bem... Ele não dá muito retorno dessa ordem.
Tento imaginar o que fez Jesus morrer por nós: um amor muito grande pela
humanidade, ou um respeito e obediência muito grandes pelo Pai? Acho que
ainda não consegui responder essa questão. Se bem que podemos lembrar
Jesus dizendo: “Pai, todas as coisas vos são possíveis; afastai de mim
este cálice. Mas não aconteça como eu quero, mas como vós quereis” (Mc 14,
36). Penso que Ele realmente foi bastante obediente. Contrariando seu
próprio querer celebrou uma Páscoa amarga, com gosto de sangue, com
momentos de intensa solidão. Até o Pai parecia tê-lo abandonado. Páscoa
difícil essa. Acho que Jesus sequer imaginava que, anos mais tarde, seu
sacrifício teria gosto de chocolate. E chocolate é gostoso pra caramba,
não é mesmo?
Eu queria escrever alguma coisa bem legal para Jesus, mas esse cheiro de
doce tira a minha concentração. Tira a sua também? É; já não se fazem mais
cristãos como antigamente. Minha culpa, minha tão grande culpa (bato no
peito)! Não sei homenagear o meu Senhor como se deve.
- Perdão Jesus! Conto os dias para devorar cada um daqueles ovos de
páscoa, recheados de surpresas maravilhosas. O Senhor reconhece que existe
uma diferença muito grande entre sangue, suor, lágrimas, e um coelho
branco, limpinho. Pra que perder tempo com a sujeira, a escória, os
excluídos, os condenados a uma vida abjeta? Não, não, não... Isso não tem
gosto de chocolate. Não consigo entender como o Senhor se deixou
crucificar. Isso não orna com coelhinhos brancos.
Lamento estar sendo repetitiva, Jesus. Na verdade, gostaria de não estar
tão confusa neste momento. Afinal, será que devo orar ou comprar ovos de
páscoa? Ou será que faço os dois? Quando olho pra você pregado naquela
cruz me sinto muito mal, meu estômago embrulha. Ao mesmo tempo, eu me
sinto super feliz no mercado, no meio de tantos ovos coloridos e de todos
os tamanhos. Por que será que isso acontece, Senhor? Será que acontece com
mais alguém? Acho que sim. Por essas e outras, peço que nos perdoe. Seu
sacrifício é o mesmo, mas a Páscoa parece ter outro significado para nós,
algo mais comercial e menos santificado.
Como eu disse no início, quem sabe este artigo sirva de reflexão. É
possível que o Cristo ressuscitado tenha mais semelhanças com o coelhinho
da páscoa, afinal, ambos são tão branquinhos. Enchem nossos corações de
esperança numa vida melhor. Vida que transpõe a morte, ressurreição!
Alegria sim orna com chocolate. Que esta seja uma Páscoa feliz pra você!
Maria Regina Canhos Vicentin (e.mail: contato@mariaregina.com.br) é
escritora.

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