terça-feira, 6 de dezembro de 2016

JORNALISTAS DA GLOBO PEDEM ESCALA HUMANA DE TRABALHO


- A redação da Rádio CBN de São Paulo enviou uma carta à direção da empresa solicitando uma reunião para tentar solucionar o problema da escala de folgas, que piorou muito no último ano. "Chegamos ao nosso limite", dizem os jornalistas, que a cada cinco finais de semana, folgam apenas um inteiro. "Enquanto, em média, um trabalhador brasileiro tem cerca de 150 dias de descanso anuais, nós temos 97 – levando em consideração os dias de férias. Se desconsiderarmos as férias, temos quase a metade de dias de descanso do que a média dos trabalhadores (67 a 120). É um disparate", critica o texto. O Sindicato dos Jornalistas de São Paulo aponta que a escala atual provoca "cansaço, estresse e agrava a condição de vida dos jornalistas". A entidade tentou um acordo com a rádio para que os jornalistas pudessem trabalhar no esquema 3 x 1, ou seja, um fim de semana trabalhado e três de folga, mas não obteve sucesso. Leia a íntegra do texto do sindicato e a carta dos jornalistas à empresa: Jornalistas da CBN pedem uma “escala humana” em carta à empresa A redação da Rádio CBN de São Paulo enviou carta à direção da empresa solicitando uma reunião para buscar solucionar o problema da escala de folgas, que piorou muito no último ano provocando cansaço, estresse e agrava a condição de vida dos jornalistas. O Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP) realizou negociações com a empresa, no início de 2016, para buscar a manutenção da escala de 3 x 1 no fim de semana, ou seja, um trabalhado e três de folga, mas não houve acordo. Agora, depois de quase um ano, a carta demonstra como as condições de trabalho pioraram ao ponto de prejudicar seriamente os profissionais e seu próprio trabalho. O SJSP apoia a redação na luta por uma escala de trabalho correta, que preserve no mínimo as condições que já eram praticadas na CBN. Leia abaixo a íntegra da carta: São Paulo, 30 de novembro de 2016 A Ricardo Gandour
Diretor nacional de jornalismo da CBN Gostaríamos que este seja o primeiro passo de uma relação que – no que depender de nós – será propositiva, construtiva e de um diálogo aberto e constante. Como você bem sabe, nós, repórteres, produtores, redatores, apuradores e jornalistas de modo geral da CBN São Paulo temos pleiteado, desde a sua implantação, há cerca de um ano, a reversão do modelo atual de escala de trabalho e folgas. Como alternativa à escala atual, já fizemos três propostas – todas refutadas pelo departamento jurídico, RH e direção de jornalismo, sem que houvesse uma possibilidade de reforma nos equívocos pontuais ou estruturais. A primeira proposta foi elaborada e negociada com participação do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, como é de conhecimento da direção de jornalismo. A última proposta foi desenhada com a participação de várias pessoas e assinada por quase toda a redação. Chegamos ao nosso limite. Enquanto, em média, um trabalhador brasileiro tem cerca de 150 dias de descanso anuais, nós temos 97 – levando em consideração os dias de férias. Se desconsiderarmos as férias, temos quase a metade de dias de descanso do que a média dos trabalhadores (67 a 120). É um disparate. Antes, a cada mês trabalhávamos em dois dias de fim de semana e folgávamos em seis. Na prática, tínhamos condição de viajar, visitar nossa família e resolver questões que, durante a semana, tomados pela rotina de trabalho, não conseguimos resolver – como compromissos médicos, por exemplo. Hoje, a cada cinco finais de semana, folgamos apenas um inteiro. Dos oito principais feriados deste ano, trabalhamos em pelo menos seis. Há turmas que passaram o ano sem folgar em nenhum feriado. Só conseguiram folgar agora, no feriado da Proclamação da República, por conta de um ajuste feito pela chefia – que trocou a ordem dos plantões –, o que, aliás, deixou outra turma sem folga dupla durante seis finais de semana seguidos. Essa situação tem provocado um desgaste físico e emocional sem precedentes para todos nós. A conta chegou. Neste ano, quatro jornalistas – de uma redação não tão grande – precisaram ser afastados por problemas de estresse acumulado e estafa relacionados ao trabalho. Doenças, depressão, problemas psicológicos. Tudo isso provoca absenteísmo que, por sua vez, afeta a produtividade e aumenta a sobrecarga de trabalho para todos. No desempenho de suas atividades, quatro colegas tiveram, no intervalo de um ano, registros de agressões físicas graves por parte de policiais e manifestantes, sem que tivessem recebido, em nossa opinião, atendimento e respaldo adequados por parte do Sistema Globo de Rádio. O desgaste físico e psicológico, porém, não altera o nível de dedicação da equipe. Mesmo no limite, temos nos desdobrado para manter a engrenagem rodando, a rádio funcionando e o produto com a qualidade do Grupo Globo e o padrão desses 25 anos da CBN. E o resultado é atestado nas grandes coberturas em que estivemos envolvidos no último ano. Mas a qualidade do nosso trabalho está seriamente em risco por conta do desgaste absoluto da equipe. A insatisfação é geral e irrestrita. A direção de jornalismo certamente tem a sensibilidade para perceber isso. É muito difícil, nestas condições, manter profissionais engajados e dispostos a propor ideias, sugerir modelos e participar efetivamente do processo contínuo de adequação e atualização da rádio aos novos tempos. Aliás, no último ano, pelo menos quatro jornalistas altamente capacitados decidiram se desligar voluntariamente da rádio, tendo a escala como um das principais razões. A principal justificativa para a mudança usada pela direção, além dos motivos jurídicos, foi o fato de que o modelo de escala implantado, com um final de semana de folga por mês, seria estendido às outras redações do Grupo Globo, o que nunca aconteceu. Em redações com o mesmo ritmo de trabalho e as mesmas demandas, inclusive nas rádios concorrentes, o modelo utilizado é o de três finais de semana de folga para um trabalhado – nem mesmo outras regionais da CBN têm o nosso modelo. Por que os outros conseguem, mas nós não? O desgaste e o esgotamento vêm em um momento em que estamos acumulando dois anos sem reajustes salariais. A empresa se recusa sequer a recompor a inflação do período. O reajuste de 10,94% dos salários, retroativo a dezembro de 2015, foi determinado pelo Tribunal Regional do Trabalho, mas até agora não foi concedido. Os cinco postos de trabalho fechados com as demissões no jornalismo deixaram a situação ainda mais caótica. O modelo de escala redesenhado após essa decisão têm sérias lacunas que podem comprometer em curto prazo – e a qualquer momento – a qualidade do produto final. Notamos uma intensificação, inclusive, das mudanças frequentes de horários em todas as funções. Somos flexíveis para/com as alterações, mesmo isso nos impedindo de ter regularidade para manter compromissos externos – como cursos que nos auxiliem no desenvolvimento profissional, por exemplo. Pior: estamos sendo privados de escolher as datas em que podemos usar o nosso banco de horas – alternativa imposta pela rádio ao sistema de horas extras. Estamos reféns de um modelo em que é impossível fazer qualquer programação ou planejamento para duas semanas além da que estamos. Ao adotar e reafirmar a escala atual, a CBN vai na contramão do que há de mais moderno, atual e arejado nas relações de trabalho. O modelo relativiza, em primeiro lugar, a saúde do funcionário e, em segundo, a importância do repouso para uma atividade que envolve processos mentais criativos a todo tempo. Para que o tema seja discutido com urgência, a redação da CBN pede uma reunião, no prazo máximo de duas semanas, com a direção da rádio e com todos os departamentos que precisem ser envolvidos nessa mudança (RH, jurídico etc.). A prioridade é de que seja estabelecida uma escala que continue de acordo com a legislação e atenda à demanda da redação. Uma escala humana, que respeite a nossa dignidade. Reafirmamos: tínhamos uma escala de 3 por 1, que nos permitia trabalhar um final de semana e descansar três. Agora temos uma escala que nos dá um final de semana cheio de folga por mês. Antes, folgávamos em 50% dos feriados. Hoje, temos dois feriados por ano. Queremos a escala 3 por 1 de volta e pelo menos a metade dos feriados do ano. Vale lembrar que, nas últimas semanas, assembleias em grandes redações, como a da TV Globo e a da TV Record, e participação de centenas de jornalistas, reafirmaram que aceitam, no máximo, o modelo 3 por 1, nada pior que isso. O limite chegou, mas não queremos deixar a CBN. Não queremos abdicar do nosso padrão de qualidade. Apesar dessa situação-limite, todos gostamos de fazer jornalismo. De fazer bom jornalismo. De entregar um produto de qualidade ao ouvinte. De fazer diferente. Não temos a menor pretensão de trabalhar menos do que qualquer redação com um modelo digno e humano de escala. Só queremos tempo. Tempo para descansar, quando precisarmos estar a postos para trabalhar em um horário ou função diferente. Tempo para pensar, quando estivermos com a cabeça livre para construir novas pautas. Tempo para viajar, ver nossas famílias, brincar com os filhos, renovar as energias, recuperar a saúde. Tempo para investir no nosso desenvolvimento profissional, acadêmico e humano. Tempo para sonhar que um dia será possível trabalhar em nossa melhor condição de desempenho. Contamos com a sua disposição para nos dar esse tempo de volta. Redação da CBN São Paulo (assinada por 24 jornalistas) http://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/269087/Jornalistas-da-Globo-pedem-escala-humana-de-trabalho.htm

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