247 – A
China deixou claro que pretende manter e ampliar sua presença na
América Latina, mesmo diante da tentativa dos Estados Unidos de
recuperar protagonismo na região. A mensagem aparece em um documento de
política externa divulgado por Pequim e analisado por especialistas como
um prenúncio de maior rivalidade entre as duas potências no continente.
A avaliação foi publicada pelo The Wall Street Journal, que destaca como o novo posicionamento chinês surge em resposta indireta ao endurecimento estratégico do governo Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos,
que vem associando a América Latina a uma prioridade de segurança
nacional e reafirmando a intenção de “restaurar a preeminência americana
no Hemisfério Ocidental”.
Documento chinês aponta “mudança no equilíbrio de poder”
Pouco depois de o governo Trump divulgar sua estratégia de segurança
nacional — com referências à necessidade de conter “competidores não
hemisféricos” — Pequim publicou um documento de 6.700 palavras sobre América Latina e Caribe, o primeiro do tipo em quase uma década.
O
texto afirma que “a China sempre permaneceu em solidariedade com o Sul
Global, incluindo América Latina e Caribe”, e sustenta que uma “mudança
significativa está ocorrendo no equilíbrio internacional de poder”,
formulação associada ao discurso do presidente Xi Jinping de que a era da supremacia global dos EUA estaria em declínio.
Analistas
ouvidos pelo jornal veem o documento como uma sinalização calculada de
que Pequim não pretende recuar em um espaço que Washington
historicamente considera sua zona de influência.
Pequim acompanha cada “frente” aberta por Trump no continente
Segundo a reportagem, a China aparece como contraponto em
praticamente todas as frentes latino-americanas em que o governo Trump
tenta projetar força — da tentativa de enfraquecer o governo de Nicolás Maduro, na Venezuela, à pressão sobre o Panamá em torno do controle e da influência no Canal do Panamá.
O Center for Strategic and International Studies (CSIS)
avalia que “a competição entre grandes potências na região mal começou”
e que o documento chinês demonstra a intenção de aprofundar vínculos
diplomáticos e econômicos para se consolidar como alternativa aos EUA.
A
estratégia chinesa combina investimentos em infraestrutura, expansão do
comércio e acesso a matérias-primas estratégicas — como minerais
críticos e energia — ao mesmo tempo em que diplomatas de Pequim atuam
diretamente com elites políticas e atores regionais.
“Não dar um centímetro”: a fórmula de Pequim
O CSIS observa que o avanço chinês não é apenas simbólico: Pequim já afirma ter 24 signatários na região ligados à Iniciativa Cinturão e Rota,
enquanto antes de 2017 não havia nenhum. A China também teria deslocado
os EUA como principal parceiro comercial de vários países
latino-americanos.
Nesse contexto, o analista Ryan Berg, coautor do estudo do CSIS, resumiu a postura chinesa de maneira direta:
“A estratégia da China é basicamente não dar um centímetro”
A frase sintetiza o sentido do documento: Pequim quer manter o ritmo
de expansão e não aceitar limitações impostas por Washington.
Venezuela vira teste de prioridades e da aliança “para todas as estações”
A reportagem afirma que a Venezuela se tornou um dos primeiros testes
concretos da retórica chinesa. Pequim reivindica uma “parceria
estratégica para todas as estações” com Caracas e tem reagido ao aumento
da pressão militar e econômica dos EUA.
O jornal relata que a
China condenou como “hegemonia ilegal” e “bullying unilateral” o
fortalecimento militar americano ao redor da Venezuela, citando
episódios como a interceptação de navios petroleiros acusados de
contornar sanções e transportar petróleo também para a China.
No Conselho de Segurança da ONU, o vice-representante permanente da China, Sun Lei, fez um pronunciamento contundente em defesa de Caracas:
“Nós
nos opomos a qualquer movimento que viole os propósitos e princípios da
Carta da ONU e infrinja a soberania e a segurança de outros países”
Apesar do tom duro, o próprio jornal observa que a tendência é de que
o apoio chinês se mantenha sobretudo no plano retórico, sem medidas que
elevem o risco de confronto militar direto com os EUA.
Sinais militares e preocupação com “pontos de apoio estratégico”
Mesmo assim, a reportagem destaca que Pequim tem emitido sinais
simbólicos que ultrapassam o campo econômico. A mídia estatal chinesa
exibiu recentemente uma simulação de guerra no Hemisfério Ocidental, com
forças “vermelhas” enfrentando forças “azuis” nas proximidades de Cuba e
do México.
Para Leland Lazarus, consultor de risco baseado
em Miami e ex-diplomata americano, tais sinais reforçam que as ambições
chinesas já não são apenas comerciais. Ele disse que Washington teme a
criação de uma rede global de “pontos de apoio estratégico”, que poderia
transformar portos em hubs logísticos militares, incluindo uma possível
estrutura em Cuba.
O jornal menciona ainda que, em relatório
anual não sigiloso ao Congresso, o Departamento de Defesa dos EUA citou
Cuba como o único país das Américas onde a China pode ter considerado
instalar uma base militar. Segundo o documento, Pequim também avançou
por meio de “soft power” e ajuda tecnológica — como apoio ao lançamento
de satélites.
Panamá expõe a disputa direta entre Washington e Pequim
A disputa mais sensível, porém, ocorre no Panamá. O país tornou-se
peça central no discurso do governo Trump, que afirma haver influência
excessiva de Pequim no entorno do canal e chegou a defender a retomada
do controle americano sobre a área.
Sob pressão, o Panamá anunciou
que se retiraria da Iniciativa Cinturão e Rota e se afastou de eventos
liderados por Xi. Ainda assim, o episódio dos portos do canal mostra
como a disputa é complexa. O jornal relata que Trump comemorou um acordo
anunciado em março em que um grupo apoiado pela BlackRock compraria o
controle de portos operados por uma empresa de Hong Kong desde 1996 —
considerado um dos sinais mais claros de presença chinesa.
Mas,
segundo a reportagem, Pequim reagiu pressionando para que o acordo fosse
reestruturado e o controle acabasse migrando para a Cosco, gigante estatal chinesa do setor de navegação.
Em
outro gesto simbólico, o prefeito de uma cidade vizinha ao canal
determinou a demolição de um parque da amizade construído pela China, o
que provocou irritação na embaixada chinesa.
Taiwan no centro: prioridade máxima da política chinesa
O documento chinês deixa explícita uma prioridade central para Pequim: romper os vínculos remanescentes entre países latino-americanos e Taiwan.
A América Latina abriga sete dos 12 governos do mundo que ainda mantêm
relações diplomáticas com a ilha — entre eles Guatemala, Paraguai e
Haiti.
Segundo o texto citado na reportagem, Pequim promete
benefícios não detalhados a países que aceitem o princípio de “uma só
China”. Alguns governos já mudaram sua posição nos últimos anos,
incluindo o próprio Panamá.
Mas a disputa permanece aberta. O jornal lembra que Honduras recentemente elegeu Nasry Asfura,
candidato apoiado por Trump, que criticou a decisão de 2023 de
estabelecer relações com Pequim e afirmou que consideraria restaurar
vínculos com Taiwan.
Trump retoma a lógica da Doutrina Monroe — e dá munição retórica a Pequim
Ainda que a estratégia de segurança nacional do governo Trump não
cite a China nominalmente ao delinear uma espécie de “Corolário Trump”
da Doutrina Monroe, o jornal afirma que o alvo é evidente. O
texto fala de “custos ocultos” da assistência estrangeira, mencionando
riscos como espionagem, armadilhas da dívida e vulnerabilidades
cibernéticas.
A estratégia também afirma que os EUA querem se tornar “o parceiro de primeira escolha” na região.
Para Lazarus, esse tipo de retórica neocolonial oferece a Pequim um trunfo narrativo:
A
China estaria “tentando traçar um contraste forte com o renascimento da
Doutrina Monroe por Trump”, e a linguagem usada por Washington seria um
“presente narrativo” para Pequim
Disputa deve crescer e redesenhar alianças regionais
O quadro descrito pelo The Wall Street Journal indica que o
tabuleiro latino-americano deve se tornar um dos principais espaços de
competição geopolítica no novo ciclo de rivalidade entre EUA e China.
Pequim amplia presença econômica e diplomática, enquanto Washington, sob
Trump, tenta reafirmar seu domínio histórico — agora com um discurso de
segurança mais explícito e, por vezes, agressivo.
O documento
chinês e as reações americanas sugerem que a disputa pelo futuro da
América Latina tende a se intensificar, com impacto direto sobre
infraestrutura, comércio, mineração, energia, alianças estratégicas e
até a própria estabilidade política regional.