SÃO PAULO (Reuters) - Os efeitos da crise prolongada e da
expectativa de lenta retomada da economia do Brasil vão fazer com que a riqueza
do brasileiro demore dez anos para se recuperar do estrago causado pela
recessão.
Na projeção de economistas, o pico do Produto Interno Bruto (PIB) per capita
alcançado em 2013 só será superado no início da próxima década, entre 2022 e
2023.
"Em 2022, o PIB per capita deve alcançar 31 mil reais (em números
deflacionados) e aí supera o patamar de 2013, quando estava em 30,8 mil reais. É
praticamente uma década perdida", diz o economista e sócio da consultoria 4E,
Bruno Lavieri.
A recessão enfrentada pela economia brasileira nos últimos anos fez com que o
PIB per capita do Brasil acumulasse forte queda desde 2014, devolvendo os ganhos
obtidos no período de forte crescimento da economia. Segundo Lavieri, esse
indicador fechará 2017 a 27,8 mil reais, voltando a crescer gradualmente apenas
a partir de 2018.
A assistente administrativa Andréia Zanetti, de 34 anos, é um exemplo de como
o brasileiro sente os efeitos dessa diminuição da riqueza. Desempregada por sete
meses, ela até conseguiu nova colocação em novembro passado, mas o salário atual
equivale à metade do que recebia no trabalho anterior.
Com isso, precisou reduzir consumo e readequar o orçamento doméstico à nova
realidade. "Troquei as lojas em que comprava roupa, deixei de jantar e almoçar
fora e cortei o telefone fixo de casa", diz Andréia. "Mudei até a marca do leite
que comprava para o meu filho."
A economia brasileira vem sofrendo com a forte recessão e, segundo cálculos
de especialistas, deve ter encolhido mais de 9 por cento desde o início da
crise, acertando em cheio a riqueza da população.
"No acumulado desde 2014 até agora, houve queda de 9,6 por cento no PIB per
capita. É uma redução do padrão de vida bastante expressiva", afirma o
pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas
(Ibre/FGV), Julio Mereb.
LENTA RECUPERAÇÃO
A projeção de lenta recuperação da riqueza do brasileiro é explicada pela
expectativa de baixo crescimento econômico nos próximos anos diante da queda do
PIB potencial do país.
"A economia deve avançar no máximo em linha com o crescimento potencial, ao
redor de 2,5 por cento, nos próximos anos", afirmou a economista da Tendências
Consultoria, Alessandra Ribeiro, para quem o PIB per capita do país só vai
superar o resultado de 2013 em 2023.
O PIB potencial do Brasil perdeu fôlego na crise atual sobretudo por causa da
forte queda do investimento e pelo lento crescimento da População Economicamente
Ativa (PEA), cujo avanço mais forte em anos passados também ajudava a elevar a
capacidade de crescimento do Brasil.
A PEA chegou a aumentar 2 por cento ao ano, mas deve crescer a uma taxa
inferior a 1 por cento nos próximos anos por causa do envelhecimento da
população.
Também fundamental para o enriquecimento do país, o desempenho da
produtividade --que está estagnada nas últimas décadas-- depende de mudanças
estruturais na economia, que envolvam reformas para aumentar o investimento,
desburocratizar e melhorar o ambiente de negócios da economia brasileira.
"As reformas dão previsibilidade para a economia e puxam o ciclo virtuoso ao
tornar o ambiente mais propício para negócios e trazer ganhos de produtividade",
afirmou o economista do Itaú Rodrigo Miyamoto.
ATRASO
O estrago da recessão no padrão de vida do brasileiro também fica evidente
quando se compara o PIB per capita do Brasil medido em dólar com o de outras
economias.
Os últimos números do Fundo Monetário Internacional (FMI), que retiram os
efeitos cambias e de inflação, mostram que o PIB per capita do Brasil deve
encerrar este ano em 15,5 mil dólares, bastante distante de economias parecidas
como a do Chile (24,7 mil dólares) e a do México (19,5 mil dólares).
O caso mais emblemático de comparação é o da Coreia do Sul, cujo PIB per
capita era bastante parecido com o do Brasil na década de 1980. Hoje, no
entanto, a riqueza média dos sul-coreanos é de 39,7 mil dólares.
"Foi um país que fez um investimento muito grande em educação e liberou a
importação de tecnologia para diversos setores da economia, o que ajudou de
alguma maneira a qualificar a mão de obra", explicou o professor de economia do
Insper Otto Nogami.
(Por Luiz Guilherme Gerbelli)
http://www.brasil247.com/pt/247/economia/282145/Brasileiro-levar%C3%A1-10-anos-para-recuperar-riqueza-perdida-com-o-golpe.htm