Reportagem
do jornal Folha de São Paulo publicada nesta terça-feira de
Carnaval está chamando atenção pelo ineditismo, pois condena o ex-presidente
Lula à prisão em duas instâncias da Justiça e o torna inelegível para a eleição
presidencial de 2018. O jornal, como se diz, “dá de barato” a condenação de Lula
sem citar que provas sustentariam tal condenação.
A matéria foi feita pela repórter curitibana Estelita Hass Carazzai, que
estreou na profissão de jornalista na Folha, em 2009, participando de
programa
de treinamento aberto
a estudantes de jornalismo recém-formados.
Como Curitiba é hoje a cidade mais antipetista do Brasil e a Folha usa uma
repórter oriunda da petefóbica classe média curitibana, não surpreendem os erros
factuais contidos em uma reportagem jornalisticamente reprovável por usar
critérios questionáveis para avaliar os processos em curso contra um
ex-presidente da República.
Antes de prosseguir, é preciso ler a matéria.
A reportagem é ruim, é tendenciosa. Por que? Basta ler os quatro primeiros
parágrafos e refletir.
Vejamos:
“Se seguirem o ritmo de outros processos, as ações contra o ex-presidente
Luiz Inácio Lula da Silva que correm pelas mãos de Sergio Moro podem torná-lo
inelegível ainda antes do pleito de outubro de 2018.
Levantamento da Folha nas seis ações da Lava Jato já julgadas em segunda
instância mostra que levam, em média, 1 ano e 10 meses até chegarem a um
veredicto no TRF (Tribunal Regional Federal) –a partir da denúncia.
Mantido esse ritmo, o petista ficaria inelegível em meio à campanha de 2018
–entre julho e outubro.
A inelegibilidade está na Lei da Ficha Limpa, que estabelece que todo
condenado por um colegiado está impedido de se candidatar (…)”
Em primeiro lugar, trata-se de matéria requentada. As informações que figuram
nessa matéria já podiam ser encontradas em outra, da
revista
Exame, publicada em 4 de outubro do ano passado Sob o título Só 3
sentenças da Lava Jato foram julgadas em 2ª instância
A matéria de Estelita, da Folha, diz, quatro meses depois da matéria da
Exame, que, agora, são seis os condenados em segunda instância pela Lava Jato.
Deve ter havido algum mutirão na Justiça Federal, desde então, para dobrar a
quantidade de réus da Lava Jato julgados em segunda instância.
A matéria da Exame, porém, é melhor que a da Folha porque faz ponderações que
esta não faz, como, por exemplo, neste trecho:
“(…) Os trâmites na segunda instância, porém, envolvem muitas variantes, como
o número de réus condenados e que vão recorrer e o próprio tempo da tramitação
do processo com Moro e dos recursos no Tribunal, onde os casos são julgados por
turmas de desembargadores – que se reúnem apenas uma vez por semana -, nas quais
um magistrado pode, por exemplo, pedir vista para analisar os casos por tempo
indefinido (…)”
Ou seja, haverá que usar uma pressa extraordinária e uma irresponsabilidade
assustadora para condenar um ex-presidente da República “pela média” das
condenações da Lava Jato, principalmente porque, até o momento, surgiram apenas
“convicções” a respeito da culpa de Lula nos “crimes” que lhe são imputados.
Alguém pode citar uma única prova de que Lula é proprietário dos imóveis que
dizem ser dele? Alguém pode citar o que, diabos, Lula fez para receber como
propina imóveis baratos e que ele teria recursos próprios para comprar?
Os imóveis não tem nem mesmo conexão cronológica com atos de Lula como
presidente da República. Não existe nem mesmo uma afirmação de qual negócio
entre empreiteiras e o governo federal o ex-presidente, sem ter “domínio do
fato” – ou seja, cargo de comando –, poderia ter viabilizado em troca da suposta
propina.
A celeridade do processo de Lula, como reconhece a matéria da Folha, é tão
grande que o juiz Sergio Moro não concordou em adiar nem por um dia depoimento
que ele deveria prestar, mesmo que isso implicasse em o ex-presidente ter que
faltar à missa de sétimo dia da companheira por 43 anos, então recém-falecida.
Algumas perguntas que a tal Estelita não se fez:
1 – Por que iriam condenar sem provas e em segunda instância um ex-presidente
da República que é também o candidato com mais apoio popular para suceder Michel
Temer?
2 – Por que o processo de Lula deveria tramitar “pela média” de tempo que
tramitaram processos de outros réus da Lava Jato, já que é muito mais complicado
devido, justamente, à falta de provas materiais?
3 – Por que a repórter dá como certa a condenação de Lula em primeira
instância? Isso não compromete a imagem (risível) de independência que o juiz
Sergio Moro tenta passar?
A repórter da Folha afirma que Lula poderia recorrer ao TSE para poder
participar da eleição de 2018, conseguir uma liminar como tantos candidatos
inelegíveis fizeram. Porém, se essas condenações em primeira e segunda
instâncias se concretizassem, o ex-presidente poderia, em tese, até ser preso,
já que o STF criou jurisprudência que permite prisão após condenação em segunda
instância.
A matéria, portanto, é cheia de furos e de ilações. Pouco jornalismo e muita
opinião. E opinião é cabível num blog autoral como este, mas nunca em
reportagens de grandes jornais… Certo?
Mas há um outro fator que Estelita não considerou. Mês passado, durante o
velório de dona Marisa Letícia Lula da Silva, o Blog conversou com Cristiano
Zanin Martins, advogado de Lula, e foi informado de alguns fatos que podem
frustrar os desejos da repórter da Folha e de seus patrões.
Lula teria que ser condenado por Sergio Moro até meados deste ano para que
houvesse um tempo menos escandalosamente curto para uma segunda condenação no
ano eleitoral de 2018, ou iria parecer ainda mais que ele enfrenta um processo
sumário e político.
Porém, no metade desse caminho tortuoso reside uma pedreira. Zanin Martins
afirma que dificilmente o Comitê de Direitos Humanos da ONU deixará de acolher a
denúncia de Lula de que a Justiça brasileira está sendo usada como “arma de
guerra” política contra si.
É isso mesmo que você leu e que Estelita, da Folha, não leva em conta: a ONU
deve abrir processo contra o Estado brasileiro por suas instituições estarem
perseguindo um ex-presidente. E essa será uma bomba que vai cair no cenário
político brasileiro no segundo semestre deste ano, segundo o advogado de Lula.
O efeito prático disso é que o MUNDO estará de olho no julgamento de Lula em
primeira instância e, além disso, no Brasil, pode haver uma comoção se usarem um
processo criminal sem provas para impedir o povo de votar no mais amado
ex-presidente da história da República, segundo Datafolha, Ibope e tantos outros
institutos de pesquisa.
O risco que a direita tucano-midiática corre é de haver uma comoção nacional
ante uma condenação de Lula sob provas fracas, como ocorreu no julgamento do
mensalão. E muito mais porque o tempo se encarregará de acelerar um processo que
está surgindo e que foi recentemente
noticiado pelo
jornal Valor Econômico.
Confira trecho da reportagem.
Esse processo deve se acelerar muito, até o ano que vem. Primeiro porque a
crise econômica ainda está longe de terminar devido à crise política; segundo,
porque mesmo que a economia melhorasse o golpe vai fazer as pessoas perderem
direitos trabalhistas, programas sociais etc; terceiro, porque muitos apoiaram a
derrubada ilegal de Dilma caindo no conto do vigário da mídia e dos golpistas de
que, ela saindo, o bem-bom da era Lula voltaria. Ou seja, as pessoas apoiaram
Dilma esperando que os benefícios dos OITO ANOS de Lula retornassem.
A memória afetiva dos áureos tempos do governo Lula vai se tornar
extraordinariamente forte até o ano que vem. A vida dos brasileiros vai piorar
muito e mesmo que a economia reaja, ano que vem, todos estarão furiosos com as
medidas golpistas de supressão de direitos.
Tornar Lula inelegível ou até prendê-lo na véspera de uma eleição
presidencial plebiscitária como a que haverá em 2018 não só poderia desencadear
uma guerra civil como desmoralizar de uma forma trágica o Brasil diante do
mundo.
Pra mim, amado leitor, não vão ter peito de fazer isso. Correm o risco de
provocar comoção social, com multidões na rua exigindo que permitam que Lula se
candidate. E protestando furiosamente contra uma sua impensável prisão
arbitrária.
Baixem a bola, golpistas. Não é assim que a banda vai tocar. Escrevam o que
estou dizendo – lembrando que desde 2015 eu vinha dizendo que Lula iria se
fortalecer eleitoralmente, como todos estão vendo, ouvindo e sentindo acontecer.
http://www.brasil247.com/pt/colunistas/eduardoguimaraes/282734/Condenar-Lula-ser%C3%A1-mais-dif%C3%ADcil-que-a-Folha-pensa.htm